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Pimentel/ABr
Brasília
– A portuguesa Maria da Conceição Tavares,
73, chegou ao Brasil em 1954 e se diz "espectadora
atônita" dos acontecimentos que culminaram no
Golpe Militar de 1o de Abril de 1964. Então funcionária
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(à época, apenas BNDE), a economista se considera
integrante da chamada "esquerda positiva", frente
de pensadores do "planejamento democrático".
O movimento culminou na criação da Superintendência
de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e na elaboração
do Plano Trienal, no governo João Goulart. Sempre
à frente dessas iniciativas, estava o economista
paraibano Celso Furtado, ministro do Planejamento.
Após
a redemocratização, Conceição
milita no PMDB. Em 1989, transfere-se para o PT, partido
pelo qual já cumpriu um mandato de deputada federal
pelo Rio (1995-8). Com o golpe de 64, a tentativa de pensar
o país em parceria com os mais diversos setores da
sociedade foi substituída por um planejamento "autoritário".
A passagem, no dizer de Conceição, deixa um
ranço que permanece até hoje. À Agência
Brasil, a economista relaciona a instabilidade macroeconômica
do período João Goulart aos desafios atuais
do país. Leia a seguir os principais trechos do depoimento.
Convulsão
social
"O comício da Central (na estação
Central do Brasil, no Rio, em 13 de março de 1964)
foi, a meu ver, excessivo, porque a situação
já estava muito incerta – a coisa das velhinhas,
da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Depois
do comício, o caldo engrossou. Entre 13 e 31 de março,
o coro pelo golpe foi aumentando.
Eu não participei do comício da Central, só
vi pela televisão e pelos jornais. Tampouco participei
da coisa da UNE. Eu era simplesmente uma economista, uma
técnica do desenvolvimento, uma espectadora, eu vi
atônita a rapidez com que você pega um movimento
num crescimento em um ano. É claro que já
tinha precedente, já vinha instável desde
a saída do Jânio, mas o que eu estou dizendo
é como pegou fogo em pouco tempo com a instabilidade
econômica e a coisa das reformas mal trabalhadas.
Isso foi se embaralhando, com uma coisa conspiratória
de um lado, intervenção do outro, e terminou
da maneira trágica que terminou".
Balaio de reformas
"As Reformas de Base eram a proposta, e havia um amplo
apoio a elas. O problema é que foi tudo junto. A
reforma agrária foi a que deu mais confusão,
outra foi a lei do capital estrangeiro. Essa chegou a passar,
acho que o ministro da Fazenda era o Carvalho Pinto, e ele
conseguiu, com apoio amplo do Congresso, passar o decreto
de capital estrangeiro, que durou até o governo Fernando
Henrique Cardoso, aí foi tirado, não havia
mais distinção entre nacional e estrangeiro,
nenhum controle. A outra reforma foi a educacional, comandada
por Darcy Ribeiro, mas o problema era que, como a universidade
estava paralisada, contida e muito vigiada por causa dos
estudantes, a coisa universitária levou muita pancada
por razão disso".
Incêndio da UNE
"A imagem mais viva que tenho do golpe é como
um pesadelo. Eu trabalhava na Cepal/ BNDES (Comissão
Econômica para a América Latina/ Banco de Desenvolvimento
Econômico e Social, grupo misto das duas instituições,
formado por Celso Furtado). Um dia, voltando do trabalho
pela Praia do Flamengo, avistei a União Nacional
dos Estudantes (UNE) em chamas. Mais tarde eu soube que
o conservador diretório acadêmico da minha
escola de Economia havia ajudado a atear fogo ao lugar.
Quem é mais visado, como sempre, nas situações
de agitação? Os estudantes reagem muito, a
favor e contra. No caso do Rio de Janeiro, eles se dividiram.
Os de Direito e de Economia saíram em defesa do golpe.
Eles usavam lenços diferentes dos demais. A pressão
do lado dos estudantes podia ser personificada pela arrogância
do jovem presidente da UNE, José Serra, que depois
virou meu amigo, mas eu tenho de reconhecer que ele era
daqueles que botam o dedo na cara de todo mundo".
Conversão de classes
"Em 1964, o movimento estudantil desabava, porque tinha
a esquerda e a direita, uns brigando com os outros. Não
é como depois de 68, em que o movimento estudantil
já era todo de esquerda. Em 64 não era, tinha
a esquerda e a direita. Vamos nos entender, o pau cantava
na universidade. Ademais, tinha o movimento camponês
e o movimento sindical aberto, isso era uma perturbação,
a tolerância com a democracia de massas e com o movimento
social era nula. Os sem-terra de então eram as Ligas
Camponesas. O movimento sindical tinha pelo menos três
bandas, como sempre. Uma mais ligada ao trabalhismo histórico,
outra mais ligada ao antigo Partido Comunista e a outra,
paulista, era o que chamamos hoje de sindicalismo de resultado".
Esquerda Positiva
"Além do Serra, outra figura exponencial era
o Leonel Brizola, que fazia pressão sobre a política
econômica. Eu, contudo, me alinhava a mais com a linha
de Santiago Dantas e de Celso Furtado, a que chamamos ‘esquerda
positiva’. Éramos favoráveis às
reformas, ao planejamento democrático, a deixar que
movimentos sociais não fossem reprimidos e caminhassem
por mão própria, a não misturar estação
e a separar a política econômica corrente –
isso está no Plano Trienal que o Furtado elaborou
– da política de reformas, de desenvolvimento.
A gente tinha idéia dos níveis das políticas
e de quais eram os tratos políticos que correspondiam
a elas, enquanto que, evidentemente, quem é mais
voluntarista mistura tudo e acha que é ‘na
lei ou na marra’. Essa não era a minha. Eu
sou da idade de alguns ministros que sobraram vivos. Almino
Affonso, do Trabalho, que era um sujeito moderado, o Waldir
Pires...
Eu era da geração desenvolvimentista, de planejamento
democrático – a idéia de ‘participativo’
não existia ainda, àquela altura chamávamos
isso de planejamento democrático. Na minha geração,
os movimentos sociais se organizavam e lutavam pelos seus
interesses, que deviam ser representados".
Imprensa amordaçada
"A imprensa, como todo mundo sabe, ficou censurada,
embora a maioria dos jornalistas não tenha sofrido
perseguição no princípio. A perseguição
imediata de 1964 foi sobre os políticos. Só
depois, com o AI-5, o movimento estudantil voltou às
ruas, já em 1968, e a coisa foi mais pesada".
A direita
"Parte da direita que apoiou o golpe depois voltou
atrás, porque percebeu, como o próprio Carlos
Lacerda, que não ia ganhar nada com o regime. Ou
seja, não ia haver eleições, e isso
não agradava a direita convencional. Quando apoiaram
o golpe, eles achavam que, afastando Jango e Juscelino Kubitschek,
o próximo presidente seria o Lacerda. Percebendo
a falta de espaço, começou a chamada Frente
Ampla pela luta democrática, que se arrastou durante
toda a ditadura nos tempos de chumbo. Mas esse não
era ainda o clima do golpe.
No golpe, uma parte da direita era golpista por razões
interesseiras, por temor de que JK ganhasse novamente. A
outra parte era contrária à agitação
social e, ademais, havia uma proposta de reformas que feria
muitos interesses. Como diria o velho Miguel Arraes, não
dá certo enfrentar, ao mesmo tempo, o latifúndio
e o imperialismo".
Política
reformista
"Já no exílio, percebemos, de uma maneira
irônica e amarga, que a proposta era apenas reformista,
não tinha nada de revolucionária. O Plano
Trienal era normal, com a parte monetária igual a
qualquer outro, e a parte desenvolvimentista tradicional
e mais as reformas. No que diz respeito à política
macro, tirando o Santiago e o Furtado, não foi possível
sustentar nada, derrubavam ministro da Fazenda um atrás
do outro. Minha sensação é de que do
ponto de vista da política econômica teve muita
mudança de ministro. Pelo lado da pressão
sobre a política econômica, o Brizola era a
figura exponencial.
Não dá certo. Quando você tem que mudar
uma política, muda, mas é por dentro, política
macro não é um negócio pra ficar dando
coice, mudar o ministro da Fazenda não sei quantas
vezes, isso não dava certo. Houve vários ministros
da Fazenda poderosos, importantes. E a política macro
foi esse horror. Já a parte das reformas escapou.
Não passavam no Congresso, onde havia uma maioria
contra elas".
O resultado
"O golpe interrompeu a construção democrática
do País. Não é que interrompeu o planejamento,
mas converteu o planejamento em algo autoritário.
O Estado, no que intervém, passa a ser autoritário
e encaminha as novas gerações de esquerda
para achar que só a sociedade civil é que
entende. Dentro dessa concepção, o Estado
é ruim, o planejamento é ruim, democratizar
o Estado não é importante porque você
tem que democratizar a sociedade, como se fosse possível
fazer uma coisa sem a outra. Esse é o equívoco
que decorre da construção interrompida. Celso
Furtado tem razão, ali estava se construindo uma
sociedade que ganhava musculatura na luta social. Tentava-se
um projeto de reformas que ia modernizar e democratizar
o Estado, porém isso foi abortado. No lugar, cresce
um Estado desenvolvimentista autoritário, planejador
e centralizado.
Evidentemente, o pessoal olhou isso e disse, "Ah! Então
sou contra, aí deu esta coisa que é uma canseira,
da qual nós mesmos somos vítimas – nós
não, porque eu não sou vítima de nada,
sou velha –, mas da qual os mais jovens são
vítimas até hoje.
Para evitar erros
"Convém saber a História, primeiro para
não repetir os mesmos erros, isso é bom. Segundo,
para clarificar os conceitos: Estado democrático,
planejamento democrático, participação
social, essas coisas. A sociedade se move e pode ser interrompida
por um período muito grande, por uma serie de equívocos,
isso é importante. Obviamente não estamos
num período maravilhoso em matéria de crescimento,
política econômica. Convém, portanto,
não disparatar, convém estar atento e não
me aprontar outra vez uma tonteira.
Porque, realmente, aqui se repete a cada década besteira
atrás de besteira, se avança lentamente. O
movimento em massa descontinua, a sociedade continua avançando,
você tem que democratizar o Estado, tem que avançar
na reforma, isso é o óbvio. Você não
pode é ficar contra o Estado e as reformas, que a
gente chamava ‘de base’. Continua havendo resistência,
é só olhar a questão agrária.
Também não pode ficar liberal a economia.
Mas não dá para ficar politicamente ‘basista’
a vida inteira. Quem trabalha na base, trabalha na base.
São dois corpos, o administrativo e o político
do Estado. Não são coisas fáceis de
administrar, controlar. Senão fica a idéia
messiânica de que o presidente pode tudo e todos os
erros que acontecerem no país é culpa do presidente,
coisa que não dá certo". |