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Deigma
Turazi/ABr
Brasília
– Na manhã de 1º de abril de 1964, o Brasil
acordou sob um novo regime, que interrompeu o fluxo democrático
no país por 21 anos. Um golpe liderado por militares
e outros setores conservadores depôs o presidente
eleito, João Goulart, e deu início a um regime
que eliminou liberdades políticas e civis.
O primeiro passo para a volta ao regime democrático,
dado em 1985, foi a posse de José Sarney, vice de
Tancredo Neves. Ambos haviam sido indicados pelo Congresso
após a gigantesca campanha pelas eleições
diretas, que no ano anterior mobilizara milhões de
pessoas, em todo o país. Sarney assumiu porque, apenas
37 dias depois de iniciar a transição democrática,
Tancredo Neves morreu de infecção generalizada,
devido a uma cirurgia.
Duas décadas antes, a renúncia de Jânio
Quadros conduzira Jango – apadrinhado político
de Getúlio Vargas – à Presidência.
A mudança fortaleceu as reivindicações
do movimento trabalhista, dos grupos que, entre outros pontos,
pediam reforma agrária, a reestruturação
do sistema financeiro e ampliação da democracia.
Mas, também cresceu a mobilização de
setores como os militares e os latifundiários, associados
ao interesse dos Estados Unidos em impedir a repetição
da tomada de poder realizada por uma guerrilha de estudantes
em Cuba, em 1959. Esses atores quase lograram impedir a
posse de Jango, em 1961, e conseguiram a implantação
temporária de um regime parlamentarista no país
por parte do mandato do presidente. Viram lograr, finalmente,
seu intento de tomar o poder naquele 1o de abril. Acompanhe
na cronologia a seguir os principais momentos desse período
importante da história nacional.
13/10/1960 – Jânio Quadros,
da União Democrática Nacional (UDN), vence
nas urnas o marechal Henrique Teixeira Lott, do Partido
Social Democrático (PSD), candidato lançado
por Juscelino Kubitschek para sucedê-lo. Jânio
é eleito presidente com 5.636.632 votos.
31/01/1961 – Jânio Quadros
é empossado presidente da República. Governa
o país por apenas sete meses.
25/8/1961 – Jânio renuncia
no Dia do Soldado, após intensa crise política
no país. Militares criam obstáculos para evitar
a posse de seu vice João Goulart (PTB), que estava
na China. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola
lidera a "Cadeia da Legalidade" com o objetivo
de garantir a posse de seu cunhado, Jango.
01/9/1961 – O Congresso Nacional
aprova a Emenda Constitucional nº 4, permitindo a posse
de João Goulart (PTB) sob o regime parlamentarista.
– Jango, vice de Jânio, é empossado no
governo, no meio de uma crise política articulada
pelos militares que não o queriam no governo. Jango
escolhe Tancredo Neves como primeiro-ministro.
12/9/63 – O Congresso revoga o parlamentarismo.
O presidencialismo retorna por força de um plebiscito
sobre o regime político do país.
12/9/1963 - Motim dos Sargentos: cerca
de 600 soldados do Exército e da Aeronáutica
ocupam prédios públicos em Brasília
e defendem o direito de candidatar-se a cargos eletivos.
13/3/1964 – Jango promove um grande
comício em frente da estação ferroviária
Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Discursa em favor
das chamadas Reformas de Base para mudar os sistemas administrativo,
eleitoral, educacional, agrário e bancário.
Anuncia o início da reforma agrária.
19/3/1964 – Os opositores do governo
reagem com uma manifestação em São
Paulo, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade,
organizada pela Igreja Católica. O evento reúne
mais de 500 mil pessoas nas ruas da capital paulista.
25/3/1964 – Marinheiros se rebelam
no Rio de Janeiro, provocando a reação dos
oficiais. Alguns historiadores consideram o levante como
a gota d´água para a insurreição
militar de 1º de abril de 1964.
31/3/1964 – Sob o comando do general
Olympio Mourão Filho, tropas militares de Minas Gerais
e São Paulo marcham em direção do Rio
de Janeiro, onde o governo federal conta com o apoio de
setores importantes da oficialidade. Jango, que se encontrava
na cidade, retorna a Brasília.
01/4/1964 – Jango viaja, à
noite, para o Rio Grande do Sul, onde desiste de organizar
um movimento de resistência, apesar das pressões
do ex-governador Leonel Brizola.
02/4/1964 – Nas primeiras horas do
dia, o presidente do Congresso Nacional, senador Auro de
Moura Andrade, declara a vacância da Presidência.
O presidente da Câmara, Ranieri Mazzili, assume interinamente
a Presidência sob as ordens dos comandantes militares.
03/4/1964 – Em nome da "restauração
da democracia", os Estados Unidos reconhecem o novo
regime, antes mesmo da formação do novo governo.
09/4/1964 – Os militares decretam
o Ato Institucional nº 1 (AI-1), que oficializa a deposição
de João Goulart e autoriza cassar mandatos e suspender
direitos políticos. Entre os primeiros cassados estão
os ex-presidentes Juscelino Kubitscheck, Jânio e Jango.
Suspendem-se a imunidade parlamentar, o caráter vitalício
dos cargos dos magistrados, a estabilidade dos funcionários
públicos e outros direitos constitucionais.
15/4/1964 – O marechal Humberto de
Alencar Castello Branco toma posse na Presidência
da República. É eleito pelo Congresso Nacional
sob suspensão da legalidade.
17/7/1964 – O mandato de Castello
é prorrogado até 15/3/1967.
27/10/1964 – O Congresso Nacional aprova
lei que extingue as Uniões Nacional e Estaduais dos
Estudantes.
27/10/1965 – Editado o Ato Institucional
nº 2 (AI-2), que dissolve partidos políticos
e limita os partidos a apenas dois: um de situação,
a Aliança Renovadora Nacional (Arena), e um de oposição,
o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Também
chancela a eleição indireta para a Presidência
da República e transforma o Congresso em Colégio
Eleitoral.
03/10/1966 – Costa e Silva é
eleito, com a abstenção do MDB.
24/1/1967 – Entra em vigor a nova Constituição,
que institucionaliza a ditadura. Cria a censura à
imprensa e a Lei de Segurança Nacional.
09/2/1967 – Aprovada a Lei de Imprensa,
que cerceia a liberdade dos meios de comunicação
– jornais, revistas, rádios e TVs.
15/3/1967 – O ministro do Exército
de Castello Branco, marechal Arthur da Costa e Silva, assume
a Presidência da República.
26/2/1968 – Os estudantes realizam,
no Rio de Janeiro, a Passeata dos 100 Mil, a maior mobilização
contra o regime militar até então.
28/3/1968 – Morre no Rio de Janeiro
o estudante secundarista Edson Luís, de 16 anos,
no restaurante estudantil Calabouço. Foi atingido
no peito por um tenente da Polícia Militar. Edson
participava de um protesto contra a qualidade da refeição
servida no local. Seu corpo foi velado da Assembléia
Legislativa. O sepultamento, no Cemitério São
João Batista, reuniu mais de 50 mil pessoas.
26/6/1968 – Atentado a bomba contra
o quartel do II Exército, em São Paulo, mata
um soldado e fere outros militares.
13/12/1968 – O presidente Costa e
Silva decreta o Ato Institucional nº 5 (AI-5). Dá
poder de demitir e aposentar juízes e funcionários,
acaba com a garantia do hábeas corpus, amplia e endurece
a repressão policial e militar. Instala-se a censura
total nos jornais, períodicos, TVs e rádios.
31/8/1969 – Gravemente doente, em
conseqüência de um derrame, o presidente Costa
e Silva é substituído por uma Junta Militar
formada pelos ministros do Exército, Aurélio
de Lira Tavares, da Marinha, Augusto Rademaker, e da Aeronáutica,
Márcio de Souza e Melo. O vice-presidente, o civil
Pedro Aleixo, é impedido de tomar posse.
04/9/1969 - Integrantes da Aliança
de Libertação Nacional (ALN) e do Movimento
Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), ambos de esquerda,
seqüestram o embaixador norte-americano Charles Elbrick.
Ele é trocado por 15 presos políticos, que
fogem para o México.
05/9/1969 – Editados o AI-13 e o
AI-14. Instituem, respectivamente, penas de banimento do
território nacional e de morte e prisão perpétua
a todo cidadão que se tornasse perigoso à
segurança nacional.
30/10/1969 – O Colégio Eleitoral
elege o general Emílio Garrastazu Médici para
a Presidência.
04/11/1969 – O principal líder
da ALN, Carlos Marighella, é fuzilado durante uma
emboscada comandada pelo delegado Sérgio Paranhos
Fleury, na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Marighella
havia participado da elaboração do plano para
o seqüestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick.
04/11/1969 – Guerrilheiros da ALN
e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) seqüestram,
no Rio de Janeiro, o embaixador alemão Ehrenfied
Anton Theodor Ludwig von Hoheben, depois trocado por presos
políticos.
17/12/1969 – Morre Costa e Silva.
11/3/1970 – O cônsul japonês
Nobvo Okuchi é seqüestrado em São Paulo
pela VPR e trocado por cinco presos políticos.
07/12/1970 – Integrantes da ALN, da VPR e
do MR-8 seqüestram no Rio de Janeiro o embaixador da
Suíça Giovanni Enrico Aucher.
17/9/1971 – Executado no sertão da
Bahia Carlos Lamarca, capitão do Exército
que desertou do IV Regimento de Infantaria, de Quitaúna
(SP), para integrar-se à guerrilha. Atua na VPR e
depois na ALN.
12/04/1972 – É deflagrado
o conflito que ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia.
Um grupo de 70 a 100 militantes do PC do B, instalados desde
o final de 1966 entre a população das matas
da região norte de Goiás, à beira do
rio Araguaia, entra em conflito com forças do Exército
e da Aeronáutica. Os confrontos seguem até
1975, sem divulgação do número de mortos.
09/5/1972 – Médici promulga
a Emenda Constitucional nº 2 que regulamenta as eleições
para os governos estaduais de outubro de 1974
05/1/1974 – Ernesto Geisel é
eleito presidente da República pelo Congresso Nacional.
15/3/1974 – Geisel toma posse e promete
fazer a abertura lenta, gradual e segura do regime.
04/1/1975 – Suspensa a censura prévia
à imprensa. As emissoras de rádio e TV continuam
sob vigilância.
25/10/1975 – Morre o jornalista Vladimir
Herzog, diretor da TV Cultura, nas dependências do
DOI-CODI, órgão subordinado ao II Exército,
em São Paulo. A versão oficial, suicídio
por enforcamento, não é aceita pela oposição.
17/1/1976 – O operário Manuel
Fiel Filho é encontrado morto, com evidência
de espancamento brutal, numa das celas do DOI-CODI (SP).
20/1/1976 – Geisel demite o general
Ednardo d’Ávila Mello, comandante do II Exército
(SP). É substituído pelo general Dilermando
Gomes Monteiro.
31/1/1976 – Diante de oito mil pessoas,
o rabino Henry Sobel, o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns
e o pastor presbiteriano Jaime Wrigth celebram na Catedral
da Sé, em São Paulo, um culto ecumênico
em memória de Vladimir Herzog.
24/6/1976 – Começa o processo
de abertura "lenta, gradual e segura", arquitetado
pelo chefe da Casa Civil de Geisel, Golbery do Couto e Silva.
24/6/1976 - A Lei Falcão, editada
às vésperas das eleições, proíbe
a propaganda eleitoral no rádio e na televisão.
Os partidos podem somente expor o nome, o número,
um retrato e o currículo de cada candidato.
22/8/1976 - O ex-presidente Juscelino Kubitscheck
morre num acidente de carro entre São Paulo para
o Rio de Janeiro. JK fazia parte, junto com João
Goulart e Carlos Lacerda, da Frente Ampla, que pedia a redemocratização
do país. Ate hoje, o acidente não foi esclarecido.
14/4/1977 - Geisel baixa o "Pacote
de Abril" quando cresce a oposição no
Congresso. O pacote determina recesso do Parlamento.
12/10/1977 – Exonerado o ministro
do Exército, o general Sylvio Frota, da linha dura,
por sua indisposição à liberalização
do regime. Geisel desmanchou, com isso, as articulações
do ex-ministro para concorrer à Presidência.
13/5/1978 – Luiz Inácio Lula
da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos
de São Bernardo do Campo (SP), lidera a primeira
greve de metalúrgicos na fábrica Saab-Scânia.
15/10/1978 – O MDB apresenta um candidato
ao Colégio Eleitoral, o general Euler Bentes Monteiro,
que recebeu 266 votos, contra 355 votos do candidato eleito
do governo, João Baptista Figueiredo.
15/11/1978 – Na soma nacional, a
Arena obtém 13,1 milhões de votos para o Senado
e 15 milhões para a Câmara. O MDB recebe 17
milhões de votos para o Senado e 14,8 milhões
para a Câmara.
12/10/77 – Exonerado o ministro do
Exército, o general Sylvio Frota, da linha dura,
por sua oposição a Geisel. Frota articulava
sua candidatura à Presidência.
31/12/1977 – Geisel comunica a Figueiredo
que ele será seu sucessor.
01/01/1978 – Geisel extingue o AI-5.
15/10/1978 – João Baptista
Figueiredo é eleito pelo Colégio Eleitoral,
com 355 votos.
15/3/1979 - O general João Baptista
Figueiredo toma posse – o último general a
ocupar a presidência da República no regime
militar. Com o general Golbery do Couto e Silva, monta um
projeto de transição para uma "democracia
relativa".
28/8/1979 - Figueiredo sanciona a Lei da
Anistia, que permite a volta ao país de pelo menos
5 mil exilados políticos, a libertação
de presos políticos e a reintegração
ao serviço público de centenas de funcionários
cassados. Continuaram excluídos aqueles que haviam
sido condenados por terrorismo e seqüestros.
22/11/1979 – A Lei Orgânica
dos Partidos extingue a Arena e o MDB e restabelece a liberdade
partidária no país. Um ano depois, os governadores
voltam a ser eleitos pelo voto livre e direto.
27/8/1980 – Três bombas explodem
simultaneamente no Rio de Janeiro. Na Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB), uma carta-bomba mata a secretária
Lídia Monteiro da Silva. No gabinete do vereador
Antônio Carlos Carvalho, a explosão fere seis
pessoas, e na "Tribuna Operária" danifica
instalações.
30/4/1981 – Em comemoração
ao Dia do Trabalho, sindicalistas e grupos de esquerda organizam
no Pavilhão do Riocentro, no Rio de Janeiro, um show
de música popular brasileira para cerca de 20 mil
pessoas presentes. Do lado de fora, três bombas detonam
– uma delas, no colo do sargento Guilherme Ferreira
do Rosário, que estava em um automóvel Puma,
no estacionamento do Riocentro, com o capitão Wilson
Luís Chaves Machados. Ambos eram ligados ao DOI-CODI.
21/8/1981 – A 1ª Conferência
das Classes Trabalhistas em São Paulo, cria a comissão
Pró-CUT (Central Única dos Trabalhadores).
15/11/1982 – Asseguradas eleições
livres e diretas para senadores, prefeitos, deputados federais
e estaduais.
27/11/1983 – Em conseqüência
de um câncer, morre o senador Teotônio Vilela,
o "menestrel das Alagoas" um dos maiores articuladores
do movimento das Diretas Já, junto com o deputado
Ulysses Guimarães.
25/1/1984 – Primeira grande manifestação
pelas Diretas Já, em São Paulo, com a participação
de 200 mil pessoas.
12/2/1984 – Realizado em São
Paulo comício-gigante pedindo Diretas Já para
presidente da República.
10/4/1984 – Comício pelas
diretas Já, no Rio, reúne mais de 1 milhão
de pessoas na Candelária.
25/4/1984 – Data da votação,
pela Câmara dos Deputados, da Emenda Dante de Oliveira,
restabelecendo a eleição para presidente da
República. Brasília ficou em estado de emergência
devido à mobilização da população.
Mas a emenda é derrubada na madrugada do dia 26:
298 deputados votam a favor, 65 contra, três se abstêm
e 112 não comparecem para votar. Seriam necessários
mais 22 votos para a aprovação da proposta.
15/01/1985 – O Colégio Eleitoral
dá a Presidência a Tancredo Neves, que integra
a Aliança Democrática – frente formada
pelo PMDB (novo nome do PMDB) e por uma dissidência
do PDS (Partido Democrático Social, novo nome da
Arena, do qual nasceria o atual PFL, Partido da Frente Liberal).
A eleição foi disputada com o ex-governador
Paulo Maluf.
10/5/1985 – O Congresso aprova o
"Emendão" – emenda constitucional
que estende o voto aos analfabetos, legaliza os partidos
comunistas e promove eleições diretas para
prefeitos das capitais e para presidente.
05/10/1988 - É promulgada a nova
Constituição do Brasil.
15/11/1988 – Nas eleições
municipais, a oposição, PT e PDT, ganha nas
principais capitais. O PMDB perde dois terços do
eleitorado.
22/12/1988 – Chico Mendes, presidente
do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (AC), é
morto a tiros no quintal de sua casa.
15/11/1989 – Ocorrem as primeiras
eleições diretas para presidente da República,
depois de 29 anos. Disputam o segundo turno Fernando Collor
de Mello (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
01/01/1990 – Fernando Collor toma
posse como presidente, com 53,03% dos votos contra 46,97%
de Lula, obtidos na eleição de 17/12/1989.
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