Golpe de 64

Delfim Netto: "Que Golpe? Não houve golpe...
O presidente fugiu!"

Deigma Turazi/ABr

Brasília – Ex- ministro da Fazenda de Arthur da Costa e Silva (1967-1969) e de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), embaixador na França na administração de Ernesto Geisel (1974-1979) e ministro do Planejamento e da Agricultura de João Baptista Figueiredo (1979-1985), Delfim Netto tornou-se um dos economistas brasileiros mais conhecidos no país e no exterior pela capacidade e, também, pelo desconforto que sua verve ferina provoca à direita e à esquerda.

Algumas de suas frases passaram para a história, assim como sua atuação no comando da economia e de outras áreas sensíveis entre 1969 a 1974, durante a ditadura militar. Na esteira de 1964, por exemplo, ele foi contundente ao contrapor-se ao ministro das Relações Exteriores de Jango, Santiago Dantas, que reclamava, em 1962: o Brasil precisava escolher de uma vez por todas entre o capitalismo e o socialismo: "Optamos, sem vergonha, pelo capitalismo", já afirmou Delfim.

Sobre o ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Rubens Ricupero, ele declarou: "Ele é o preferido das donas de casa, porque nunca mente. Aparece na tevê dizendo que fez o início do começo, ou seja, nada". Sua metralhadora giratória teve ainda como alvo a ex-ministra Dorothéa Werneck: "A ministra merece o prêmio Nobel da Economia. Finalmente descobriu que o câmbio influencia a inflação".

A expressão "é preciso fazer crescer o bolo para depois distribuí-lo", em que explica sua famosa "teoria do bolo", também marca a biografia de Delfim. Da cadeira de professor titular da Faculdade de Economia da USP, ele saiu para ocupar a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, em 1966., função exercida durante poucos meses, somente até o ex-presidente Costa e Silva convidá-lo para o ministério.

Delfim Netto, 76 anos, é atualmente deputado federal pelo PP de São Paulo. Em rápido depoimento à Agência Brasil, obtido no plenário da Câmara, na última terça-feira, 30, ele nega a existência de um golpe em 1964. Segundo Delfim, não houve deposição, Jango é que "fugiu". Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Golpe?

"Golpe, que golpe? Não houve golpe, o presidente fugiu. O Jango era um estancieiro incompetente, tinha destruído a economia brasileira, a sociedade brasileira, fugiu, deixou o país desvalido, abandonou o poder. Ficam se organizando nessa conversa mole. Por que vocês não colocam no ar os movimentos anteriores a 64? Eu acho que 64 não caiu do céu".

É preciso compreender os fatos

"É preciso compreender o que aconteceu. Foram 21 anos de um regime autoritário. Isso é um fato óbvio, contra o qual não se pode fazer nada. É preciso compreender o que aconteceu. Jango foi embora, fugiu, desarrumou tudo e foi-se embora. Basta ver o povo que esta na rua em 63. Depois que o Jango fugiu, se desmontou a Constituição, e aí os militares assumiram".

Erros e acertos

"Os militares fizeram coisas boas e coisas ruins, como todo governo, civil ou militar. O que aconteceu é que jamais se esperava que aquilo durasse tanto. Eu, por exemplo, sou testemunha de um fato que aconteceu em 1968. O presidente Costa e Silva disse para mim: ‘Delfim, dia 7 de setembro nós vamos promover, vamos aprovar a Constituição que o doutor Pedro Aleixo construiu’. Mas, ele teve um enfarte, aí o mundo vai evoluindo. Quando o futuro virou passado, está assim de gente que entende a coisa".

Milagre econômico

"Não houve milagre nenhum. Houve o trabalho dos brasileiros. O Brasil cresceu 10% ao ano durante 10 anos seguidos, o salário cresceu 3% ao ano, e o emprego, 3% ao ano Os brincalhões aí estão falando em 10 milhões de empregos. Pois foram criados naquela época 15 milhões de empregos. E o Brasil, de 48º economia do mundo, veio para a 8ª posição".

Distribuição de renda

"Mas aí, dizem: a distribuição de renda piorou... A distribuição de renda ficou rigorosamente no que era. Distribuição de renda não é sinal de bem-estar ou mal-estar. Distribuição de renda é sinal de distância. Quando você acelera o crescimento, a distância cresce".

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