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Pimentel/ABr
Brasília
– Naquele 1o de abril de 1964 em que João Goulart
foi deposto do palco presidencial, o soteropolitano Gilberto
Passos Gil Moreira, 61, ainda ensaiava os primeiros acordes.
Apenas iniciava a carreira que o imortalizaria como o cantor,
compositor e hoje ministro da Cultura Gilberto Gil. Entre
audições dos conterrâneos Dorival Caymmi
e João Gilberto, Gil estava envolvido nas intensas
articulações culturais do ambiente universitário
baiano pré-golpe, como secretário de cultura
do Centro Acadêmico da Escola de Administração
da Universidade da Bahia.
Em
seu depoimento à Agência Brasil, Gil narra
seu cotidiano da época, entre as visitas à
namorada Belina e a "caipirinha ideológica"
do período, que adicionava literatura marxista a
uma intensa mistura entre cineastas, artistas plásticos,
músicos, atores e dramaturgos. Um coquetel que daria,
mais tarde, no Tropicalismo, mas foi amargado pela violência
do Ato Institucional número 5, em 1968.
A partir dali, Gil e vários de seus colegas seriam
levados ao exílio na Europa para fugir de uma repressão
que já incluía abertamente a tortura e o assassinato
de militantes de esquerda. Um tempo de "lembranças
desconfortáveis", bem diferente da alegria baiana
do início dos anos 60, tempo embalado pela união
de estudantes, operários e camponeses, como lembra
Gil. Leia a seguir os principais trechos da conversa.
Bahia
"Nós estávamos em Salvador. Eu era muito
jovem ainda. Éramos curiosos. Tudo girava em torno
das coisas que estavam ali em Salvador. Em 64, eu estava
no quarto ano da Escola de Administração de
Empresas. Era secretário de cultura do centro acadêmico.
Tínhamos um trabalho muito forte com o CPC, o Centro
Popular de Cultura, ligado à UNE (União Nacional
dos Estudantes).
Os estudantes tinham um trabalho intenso em todo o Brasil
nessa área de cultura, com política, com militância.
Tinham relações com o movimento operário
e toda aquela movimentação caracterizava a
mobilização da parte mais jovem e mais inquieta
da sociedade civil.
Salvador tinha, portanto, uma intervenção
muito forte nesse sentido – em tudo, eu diria. Principalmente
sob a liderança do movimento universitário.
O movimento estudantil abrangia o movimento secundarista,
que tinha também uma atuação muito
grande. Mas a grande locomotiva era o movimento universitário.
Numa universidade que, àquela época, vivia
um período muito criativo e bonito. Era a universidade
que Edgar Santos tinha implantado, sob o signo de inovação,
de arrojo, de aventura e criatividade".
A universidade
"O golpe de 64, nesse sentido, lá na Bahia em
particular, teve mesmo o sentido de interrupção
de um processo. Prejudicou fortemente aquela atividade que
se fazia na Bahia a partir da reitoria da universidade,
com a escola de música, a escola de teatro, a escola
de dança.
Havia uma efervescência muito grande. Todo o movimento
das artes plásticas tinha uma presença muito
forte. Muitos jovens pintores e artistas plásticos
tinham uma atividade intensa. E se relacionavam com muita
permeabilidade, com muitos setores da vida cultural da Bahia.
A música, por exemplo, tinha uma interação
muito grande com o pessoal do teatro. Foi exatamente o pessoal
do teatro da Vila Velha, João Augusto, Othon Bastos,
Petrovich, todo aquele pessoal, que acolheu o grupo dos
jovens músicos baianos. O nosso, por exemplo, que
deflagrou toda aquela coisa, para mim, para (Maria) Bethânia,
Gal (Costa), Caetano (Velloso), Tom Zé, para todo
esse grupo.
Aí, sem dúvida alguma, havia todo aquele clima
de quase terror, porque o terror propriamente dito só
chegou depois do AI-5 (Ato Institucional número 5),
em 1968, com a tortura e a eliminação de pessoas
e militantes. Isso tudo veio depois. Mas, em 64, o primeiro
golpe, no 1o de abril, já determinou uma dificuldade
muito grande para o movimento cultural. Em Salvador, em
especial, porque havia esse particular clima favorável
a uma ebulição".
Golpe
"No dia do golpe, eu tenho impressão de que
estava na universidade. Já na véspera, há
uns dois ou três dias, a gente sabia que a coisa estava
começando. Especialmente nós, estudantes,
que tínhamos militância direta lá nos
centros acadêmicos. Nos mantínhamos muito informados.
Estava todo mundo ligado nas rádios, nas agências
de notícias.
As redações de jornais estavam em contato
direto com as lideranças estudantis e tal. Na noite
anterior, eu tinha estado na casa da minha noiva, Belina.
Nós conversamos sobre o clima de pré-golpe.
As preocupações já estavam muito fortes
no ar. No dia seguinte, no dia 1º, acho que logo pela
manhã, a gente teve a notícia.
Estávamos todos, se não na escola, na escola
de engenharia, que concentrava o movimento estudantil à
época. Era ali no Forte de São Pedro. Para
lá se dirigiam os líderes de todas as escolas.
Era ali que a União dos Estudantes da Bahia fazia
seu quartel-general. Ali era a localização
das atividades centrais, dividida entre a Escola de Engenharia
e a Escola de Economia".
Resistência
"A Escola de Medicina também tinha uma atividade
que servia mais pra juntar muita gente para as manifestações
públicas. Ficava no Largo do Terreiro, uma área
bem central da cidade. Lá, por exemplo, houve a resistência
dois ou três dias depois golpe, durante a guerra da
legalidade, foi deflagrada a partir da resistência
do Jango, do Rio Grande do Sul, do Brizola.
Esse momento todo foi concentrado na Faculdade de Medicina
no Largo do Terreiro. Ali ficavam duzentos, trezentos estudantes
reunidos. O Exército ocupava o Largo todo. Houve
momentos de confronto mesmo entre estudantes e Exército,
Exército e Polícia Militar. E eu estava ali,
ali em Salvador. A gente circulava de casa para escola,
da escola para outras escolas e, como eu namorava a Belina,
toda noite eu estava na casa dela por ali.
Nós éramos muito jovens, a informação
sobre política e sobre sociedade que a gente tinha
era muito dirigida pela visão esquerdizante que predominava
no movimento estudantil na época. Quem não
era de esquerda propriamente, formalmente ligado ou à
Ação Popular, ou à Polop (Política
Operária), ou a uma daquelas associações
de estudantes e de operários, era o que se chamava
de linha auxiliar.
Eram alguns estudantes de direita que resistiam frontalmente
a toda essa mobilização. Os militantes engajados
e as chamadas linhas auxiliares, aqueles que simpatizavam
com o movimento, tinham uma noção muito, ainda
que não profunda, mas uma noção clara
sobre o que seria injustiça social, quais eram os
atores nesse quadro, o problema do capital estrangeiro,
a questão do imperialismo. Eram as palavras de ordem
dessa militância e dos quadros simpatizantes dessa
militância".
Iniciação a Marx
"Eu era do quadro simpatizante. Eles mesmos, os meninos,
os outros estudantes que militavam diretamente, me consideravam
como ‘linha auxiliar’. Tinha minhas dificuldades,
não era o que se denominava na época de comunista,
mas também não era um rapaz de direita. Eu
dirigia a parte musical do CPC, colocamos uma escola de
samba no carnaval daquele ano, era o secretario de cultura
da escola de Administração.
Estava começando a ler Marx, a me interessar pela
literatura ligada a isso. Tinha noção de quem
era Lukács, quem era Gramsci, quem era Marx. Lia
pequenos trechos de livro desse pessoal todo. Esse era o
clima. E a UNE era uma entidade muito vibrante nesse sentido.
Ela tinha um papel muito grande, muito forte, articulava
muito facilmente com a classe operária com os setores
das lideranças operárias.
Havia essa coisa, o movimento operário e o movimento
estudantil eram movimentos muito ligados. Estava no momento
do país sob a égide desse processo esquerdizante
mesmo. Esses movimentos sociais estavam em embrião
ainda naquela época. Uma sociedade muito menos complexa
do ponto de vista da estratificação do que
hoje, a classe operária era uma classe sem grande
complexidade.
Não havia a complexidade de São Paulo, não
havia um ABC, toda essa elite operária que acabou
criando mais tarde o PT, na década de 70. Era uma
classe operária, eu diria, ainda clássica
do ponto de vista internacional, ela ainda era um embrião
do que tinha se tornado a classe operária na Europa
e em outros lugares".
Formação ideológica
"Havia também os setores camponeses, que àquela
época também eram diferentes, muito diferentes
do que hoje é o MST. Todos, de uma certa forma, se
subordinavam a um processo geral de lideranças que
vinham dos grandes centros, lideranças urbanas, nacionais.
De uma certa forma, obedeciam a uma lógica do cosmopolitismo
político-ideológico internacional, com muita
influência da Itália, da França, da
área soviética.
Muito do comunismo e do esquerdismo era informado pelo processo
que havia na União Soviética e na China, países
que davam as bases das grandes teses ideológicas.
Do ponto de vista mais prático, do ativismo mesmo,
do ponto de vista da interpretação da análise,
do lado intelectual, eram a França e a Itália
que influenciavam muito. Mas eu, por exemplo, naquela época
ainda estava muito naquela coisa de saber quem era quem,
quem era Marx.
Eu lembro que trabalhava na alfândega e levava ‘O
Capital’ (de Karl Marx), um volume imenso, de novecentas
e tantas páginas. Ficava lendo ali, lutando para
entender tudo aquilo. A gente não tinha o conhecimento
de economia, sobre política mesmo e social. Tinha
muita dificuldade de entender aquilo tudo.
Havia, portanto, uma presença estudantil muito forte,
porque eram grupos urbanos ligados à universidade,
ligados a setores de porte intelectual mais sólido
e articulados com o movimento operário, que tinha
também já uma organização muito
interessante, começando, e o setor camponês
também. Eram o movimento estudantil, operário
e camponês juntos".
Criações populares
"Essa articulação entre movimento estudantil,
operário e camponês, sob a batuta de um grupo
de intelectuais de São Paulo e do Rio, de teóricos,
qualificou bastante os criadores e artistas populares a
trabalharem nessa perspectiva de uma intervenção
mais uníssona, mais definidamente contra a questão
da injustiça social, por uma tese revolucionária.
Isso acabou influenciando muito fortemente as artes, o teatro,
música, o Cinema Novo que veio, que é uma
coisa que surge daí, os movimentos musicais do Rio
de Janeiro, São Paulo, Vianninha, Augusto Boal, Edu
Lobo, Chico Buarque, Geraldo Vandré. Todos os artistas,
músicos que vieram de uma certa forma contribuir
para isso.
O tropicalismo é um estágio seguinte, mas
é filho dessa movimentação toda. Um
estágio que de certa forma trazia uma crítica
a esse primeiro movimento da visão esquerdizante,
mas ao mesmo tempo é descendente desse movimento.
Acho que esse movimento político-ideológico
qualificou, instrumentalizou.
Essa influência desse processo que se deu ali entre
os 60 e os 70 permaneceu, prosseguiu, foi levada adiante
com todo um trabalho que continua sendo feito por compositores
durante a década de 70 toda, vai até a abertura".
São Paulo dos anos 60
"Cheguei a São Paulo em 65. Primeiro, teve o
impacto de ir para uma cidade grande, onde os viadutos começavam
a ser construídos, todos os espigões. Uma
cidade já totalmente verticalizada, com as grandes
avenidas, as grandes construções, uma densidade
de ação e reflexão sobre o urbanismo.
A questão o social também com a periferia.
No Rio e em São Paulo, predominava a questão
da periferia, das vilas em São Paulo e das favelas
no Rio de janeiro. Isso teve um papel muito forte na maneira
como os movimentos sociais se desenvolviam, teve um impacto
muito grande nesse sentido, o cheiro de óleo queimado
(risos), o que a gente ainda não tinha em Salvador.
Eu não diria que São Paulo parecia conservador,
mas o primeiro impacto foi de encontrar um certo deserto.
Na Bahia, a gente tinha uma atividade enorme, articulada
entre teatro, cinema e música, artes plástica
e tal. Mas a gente não viu isso em São Paulo.
Logo em seguida, em contato com o Teatro de Arena, retomamos
o contato com esse universo dos setores culturais articulados.
Havia em São Paulo, como havia em todas as cidades
do Brasil naquele momento, uma articulação
muito forte entre movimento estudantil, movimento cultural,
cinema, teatro, musica e o movimento operário, com
extensão no caso de Pernambuco, do Nordeste, do Rio
Grande do Sul, áreas mais periféricas também,
mas com uma articulação com o movimento camponês".
Dimensão heróica
"Quando a gente teve a notícia do golpe, sentiu
muita coisa. Medo, frustração revolta, indignação,
um certo entusiasmo com relação a buscar um
enfrentamento, a dimensão da luta, o viés
heróico. A dimensão heróica passou
a fazer parte das especulações. Todos aqueles
jovens daquela época começaram a considerar
a possibilidade da dimensão heróica das suas
vidas. E isso acabou se comprovando, especialmente depois
de 1968, com a tortura, a eliminação e a perseguição
sistemática dos quadros militantes. Essa visão
heróica se efetivou através da resistência".
Desgosto
"Não gosto muito de lembrar essa época,
porque foi difícil, as lembranças são
desconfortáveis. Mesmo em 64. Aquela semana de 64,
a resistência, a greve da legalidade, aquilo tudo
foi um tormento, mexeu muito com a gente, esse misto de
revolta, medo e impulso heróico, tudo isso tinha.
Lá em Salvador, na Faculdade de Medicina, quase entraram.
Eu me lembro, eu, o Ronaldo Duarte, vários estudantes
na época fazendo barreira humana na porta da faculdade
de Medicina, com os soldados empunhando metralhadoras e
tudo.
Aquela tensão, teve tudo, teve a hora até
da possibilidade da entrega da vida. Aquilo tudo era ingrediente,
ainda que fragmentariamente, residualmente, mas tudo isso
entrava na formação daquela caipirinha (risos)
que nos embriagava a todos. Aquela caipirinha política-ideológica,
que era a nossa bebida naquele momento". |