| Deigma
Turazi/ABr
Brasília
- Ex-senador, ex-governador do Pará e ex-ministro, Jarbas Passarinho,
84 anos, é um dos últimos remanescentes do regime militar.
Participou do movimento que precedeu o Golpe de 1º de abril 1964.
Ao longo dos 20 anos de ditadura, ocupou três ministérios
importantes, em governos distintos do regime: Trabalho, no governo Arthur
Costa e Silva (1967-69), Educação, com Emílio Garrastazu
Médici (1969-74), e Previdência Social, nos tempos de João
Baptista Figureiredo (1979-85).
Nascido em Xapuri, no Acre, a terra do seringueiro e ecologista Chico
Mendes e do médico Adib Jatene, Passarinho, que também
foi ministro da Justiça de Collor de Mello (1990-92), está
aposentado como coronel do Exército. Em Brasília, leva
uma vida de classe média alta. Sobrevive com o soldo de R$ 3
mil pagos pelo governo, com 70% do valor referentes ao cargo de senador,
pagos pelo Instituto de Previdência do Congresso Nacional. Ele
também trabalha como assessor da Presidência da Confederação
Nacional da Indústria (CNI).
Durante sua estada no Pará, como chefe do Estado Maior do Comando
da Amazônia, foi encarregado de arquitetar o plano da reação
militar que depôs João Goulart da Presidência da
República. Um dos estados em que o comando agiria para garantir
a deposição de Jango, caso houvesse resistência
civil, seria Goiás. Articulou o Golpe com os comandantes militares
de São Paulo, do Rio de Janeiro e Minas Gerais. No depoimento
à Agência Brasil, o ministro afirma que não se arrepende
de nenhum ato que tenha realizado naquele período: "Não
sou Madalena arrependida".
Organização do Golpe
"É preciso remontar a 1962, quando houve eleições
gerais, e apareceu o famoso Ibase (Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas). Eu era chefe de Estado Maior do Comando
da Amazônia e tomei conhecimento já do movimento anticomunista,
que, por trás dos americanos, financiava esse Ibase. Comecei
a ver como se refletia sobre nós a Guerra Fria, e fazia uma dicotomia
biológica: de um lado, a defesa da democracia e, de outro lado,
a defesa do totalitarismo comunista.
Em
1963, nós já tínhamos três oficiais generais
que comandavam no Amazonas, e os três, por uma coincidência
enorme, tinham sido colegas de turma do Colégio militar do Rio
de Janeiro – o almirante, o brigadeiro e o general. E eu passei
a ser uma espécie de chefe de Estado Maior clandestino ou informal
deles também.
Aí começou o acompanhamento no Pará e no Rio de
Janeiro. Houve aqui em Brasília um movimento armado de sargentos
da Aeronáutica e da Marinha. Ocuparam o quartel de fuzileiros
navais, o ministério, e foram desalojados por tropas do Exercito,
com morte. A primeira grande surpresa que eu tive foi que recebi um
documento reservado, sigiloso, do Estado Maior do Exército, mostrando
a infiltração nos seminários católicos de
jovens comunistas. Eu achei aquilo absurdo. Nunca podia imaginar que
aquilo se desse.
E aí deu de ver depois o que aconteceu no Congresso das Perdizes,
em São Paulo, com os dominicanos trabalhando direto com Carlos
Marighella, praticamente sob suas ordens. Ele era um dos comunistas
mais valiosos, mais valentes que havia. Nós começamos
a juntar os fatos políticos e os fatos militares. Nos fatos políticos,
não tínhamos consenso a respeito disso ou daquilo. As
Reformas de Base, por exemplo, um monte de nós defendíamos.
Eu sempre defendi a reforma agrária, por exemplo."
Antigolpistas
"O que nos preocupava era ouvir o nosso engenheiro Leonel Brizola
dizer que era preciso fechar o Congresso para poder passar as Reformas
de Base. E ainda se referia ao Congresso de uma forma deselegante. Bom,
aí, apareceu uma série de constituintes: fecha o Congresso
e convoca uma constituinte para poder aprovar as reformas. Não
era o caso. O presidente João Goulart entra com uma mensagem,
criando o Estado de Sítio, mensagem em que depois ele recuou.
Mas tudo isso foi mostrando um quadro. Nós nos reunimos, os militares
- se pegarem o livro do general Portella (Jayme), vão ver que
coube a mim centralizar esse movimento no Norte. Então, nós
decidimos tomar a seguinte decisão, foi em 63: nós vamos
nos reunir e nos preparar para nos opor a um golpe.
Nós
éramos antigolpistas, e esse golpe, nós víamos,
em grande parte, poderia surgir da aliança de João Goulart
com o Luís Carlos Prestes, que era considerado foragido e, no
entanto, era recebido pelo presidente. Aí, ele (Brizola) vai
a Pernambuco e é recebido pelo governador Arraes (Miguel). A
imprensa toda publicou na ocasião as declarações
que ele deu: "Nós, comunistas, estamos no governo, mas ainda
não estamos no poder". Isso tudo foi para a prancheta do
Estado Maior. Então, nós nos preparamos para nos opor.
Quando chega março, começa a mudar o clima. Nós
tivemos um aumento dessas ações: havia a CGT (Confederação
Geral dos Trabalhadores), que era ilegal, mas que fazia só greves
políticas. Não era greve por salários, não
era greve por melhoria de trabalho. Estou fazendo sempre a separação:
no campo político, nós não havíamos unidade
total, no campo militar tínhamos. Porque nós não
podíamos admitir que houvesse, jamais, atos de insubordinação.
Aquele motim que faziam aqui em Brasília, por exemplo: ocuparam
o terminal Área Alfa, que é na verdade hoje a Esplanada
dos Ministérios, com morte, e nada aconteceu. Chega o ano de
64. No mês de março, começa aquela história
de Comício da Central. Também não nós impressionaram."
Socialista inflamado
"Nós achávamos o Brizola um socialista exaltado e
inflamado demais, muito radicalizado, apenas isso. Em 1961, por exemplo,
eu fui a favor da posse de Jango. Eu achava que se devia cumprir a Constituição.
Os três ministros militares do Jânio (Quadros) criaram aquele
problema de que ele (Jango) não tomaria posse. E outra vez nós
nos salvamos da guerra civil pelo Congresso. Inteligentemente, o Congresso
inventou um parlamentarismo que era mero pretexto para Jango poder assumir,
e que ele derrubou poucos anos depois com o presidencialismo. Ele começou
a usar um presidencialismo imperial. O parlamentarismo foi uma farsa.
Era o Jango que fazia uma farsa: chamava, mandava nomear, demitir. Era
tudo ele, não era o primeiro-ministro."
Povo não queria ditadura civil nem militar
"No dia 20 de março de 1964, o presidente Castello Branco,
que era na ocasião era chefe do Estado Maior do Exército
Brasileiro, baixou uma circular aos generais, aos seus subordinados
e para eles próprios ligados ao Estado Maior. Ele faz uma advertência
claríssima, mostrando que o povo não queria ditadura –
nem militar nem civil. Agora, o que ele não admitia era baderna.
Não admitia que o presidente da República trabalhasse
claramente para violar a Constituição.
Eu recebi no Pará essa circular, que não devia receber,
porque não era subordinado ao Estado Maior do Exército
Brasileiro, por uma pessoa que nos levou. Nos tínhamos mandado
um coronel nosso para o Rio, para acompanhar como estava a situação.
Recebi a circular no aeroporto e meu general estava presente por um
acaso. Eu passei para ele só no dia seguinte. Eu mesmo tinha
um plano que me coube fazer, inclusive: era dominar a Amazônia
e avançar sobre Goiás. Nos viríamos para cá."
Almoço e jantar
"Quando chega o dia 26, houve um motim dos marinheiros. Eles dominaram
o navio de guerra, onde o corpo de esquerda passava para ver aquele
Encouraçado Potemkin – que nós chamamos de "Potente"
–, mostrando como os insubordinados deviam dominar, matar seus
oficiais. E isso apavorou a Marinha, porque eles dominaram o navio,
mas desembarcaram, foram se asilar num sindicato de metalúrgicos,
que era chefiado por um líder sindical comunista. O João
Goulart, com os pelegos, procurava dominar o sindicato e os comunistas
trabalhavam também neste sentido.
Então, complicou demais. Quando chegou o dia 26, eles falaram
que nós tínhamos que mudar de posição: ‘Se
nós ficarmos esperando, se nos não almoçarmos eles,
eles vão nos jantar’. Isso se completou no dia 30, quando
o presidente João Goulart foi falar no Automóvel Clube
para os sargentos da Policia Militar do Rio de Janeiro. A linguagem
dele foi extremamente violenta, tanto que, no livro do Prestes, que
ele ditou, ele disse "qual é o oficial do Exercito que poderia
ouvir o presidente falar daquele modo e não ficasse intranqüilo.
Aí, o Mourão (o general Olympio Mourão Filho) inicia
o processo em Minas Gerais... O que incomodou os militares foram as
ações militares de crimes praticados sem conseqüência.
Por exemplo, na ocasião em que os marinheiros foram se anistiar
no sindicato, o ministro Silvio Mota, da Marinha determinou que os fuzileiros
navais fossem prender os marinheiros. Os fuzileiros navais chegaram
lá, baixaram as armas e se abraçaram. Ah! Isso pro Exercito...Eram
liderados pelo famoso Cabo Anselmo, que presidia uma associação
de marinheiros e cabos. Isso alarmou, evidentemente, porque em cima
de nós funcionava a síndrome de 1935, que foi a Revolta
Comunista que Prestes lançou, onde houve os primeiros atos claríssimos
de deslealdade Isso voltou tudo à tona, e foi quando nos dizemos
"ou nos os almoçamos ou eles nos jantam".
Jango instiga os quartéis
"Hoje eu tenho certeza: se não tivesse havido a ação
de Brasília, seguida da ação dos marinheiros, não
teria havido a ação militar. Tenho quase certeza que a
área política não se dividiria, alias, nós
não nos uníamos, nós nos dividíamos. Uns
eram a favor, outros não. Para mim, isso foi fundamental. No
dia 30, está subindo lá o helicóptero do presidente
com os sargentos. Era praticamente o presidente da República
estimulando os sargentos à revolta, e os sargentos iriam fazer
a mesma coisa de 1935."
Condecoração de Che
"Aquilo foi mera exibição. Mas realmente chocou.
Chocou os militares mais conservadores. Denys (Odylio), por exemplo,
que era ministro dele, se chocou. Ele fez fora do dia (condecorar Che
Guevara com a Ordem do Rio Branco), para dar uma cutucada em cima dos
Estados Unidos. Fez jogo de cena. Puro jogo de cena. Passaria, como
passou."
Respeito a Jango
"Nesta ocasião, nós (Comando Militar da Amazônia)
passamos a ser uma espécie de apêndice do que já
estava acontecendo no Rio de Janeiro, porque, do dia 1° para o dia
2, o Jango já tinha saído de Brasília para o Rio
de Janeiro. Se não me engano, com uma passagem em Porto Alegre,
onde ele marca uma atitude que mostra a dignidade dele, o patriotismo
dele, a decência dele, quando ele impediu que o Brizola quisesse
fazer uma luta armada no Rio Grande do Sul. Já não teria
unidade, como quando teve em 61. Mas haveria derrame de sangue, e o
Jango não aceitou. Esse ponto nele, para mim, é de alta
relevância e eu respeito."
Não sou madalena arrependida
"Eu não sou madalena arrependida. Eu assumi todas as minhas
responsabilidades, inclusive reconhecendo erros. É outra coisa
diferente. O Delfim (Netto) fez um elogio uma vez para mim, numa entrevista
que deu, em que ele diz que eu defendia até aquilo a que internamente
eu não era favorável, que eu tinha responsabilidade e
lealdade ao meu presidente. Eu não diria que me arrependi. Por
exemplo, o AI-5 mesmo, essa história, eu pinço muito na
minha expressão, "a história do espírito de
consciência". Eu, quando vi o ministro dizer: "Nós
não temos condições de assegurar a ordem, se as
liberdades fundamentais forem mantidas", tomei a decisão
de assinar o AI-5."
Apoio da Igreja
"A Igreja, que nos deu apoio maciço no dia 31 de março,
começou ser trabalhada pelo grupo da Teologia da Libertação,
grupo que quer fazer mártires igual a Cristo e, com isso, começou
também a ter alguns padres atingidos inicialmente por essa ação
do suposto rosto de identidade ‘Marx com Cristo’, que nós
nunca aceitamos. E aí, aparece a PM, lá vai PM, pega padre,
daqui a pouco já é bispo... Aí, ela começou
se voltar contra nós. Dom Paulo Evaristo Arns chegou a dizer
que ele foi ao encontro das tropas mineiras para abençoá-las
e oferecer assistência religiosa. Ele estava inteiramente a favor,
inclusive, com medo do comunismo. Depois se transformou no grande pólo
de resistência ao ciclo militar."
64 perguntas
"Eu acredito até que o governo americano devia ter esse
interesse, porque o Che Guevara já tinha falado que criaria vários
Vietnãs onde ele pudesse, e ele veio pra cá nesse período,
quando escolheu erroneamente a Bolívia e lá morreu, nesse
período. Agora, eu posso lhe garantir, era oficial do Exército,
do Estado Maior do Exército, acompanhava o Estado Maior do Exército
Brasileiro este ano e, depois, como ministro, tive conversas com Magalhães
Pinto, tive conversas com outras pessoas. Em nenhum momento, os Estados
Unidos participaram do movimento de 64, exceto, vamos à exceção
e fazer a correção histórica verdadeira, exceto
porque talvez o Magalhães Pinto, que iniciou o processo revolucionário,
receasse que aqui ia haver uma guerra civil.
É claríssimo que haveria mais uma ameaça de guerra
civil, e nós não teríamos suprimentos. O nosso
grupo não teria, porque toda a área que supôs aquele
general, Assis Brasil, que seria o tripé para apoiar o Jango,
não era tripé nenhum. Então, se o Rio de Janeiro,
São Paulo e Rio Grande do Sul não aderissem, os mineiros,
mais quem acompanhasse, não teriam petróleo, não
teriam gasolina, não teriam nada disso.
Acredito que foi uma ação dele (Magalhães Pinto)
com o embaixador Lincoln Gordon, a preparação daquele
plano chamado Brother Sam. Colocaram lá (em Santos) uma frota
que trazia pra cá não armamento, vinha trazendo suprimentos.
Se demorasse, ia ter. Claro que eles teriam interesse depois de poder
ter até um apoio maior. Só que nós resolvemos em
24 horas, sem nenhum tipo de participação deles. E aqui,
você pode brincar, pode ir um sujeito para a CPI e não
responder nenhuma palavra, como agora apareceu um. Fizeram 64 perguntas,
e ele só respondeu uma: ‘Sou funcionário público’,
disse só o que ele achou que podia responder. Mas Lincoln Gordon
foi chamado ao Senado americano, onde lhe fizeram esta pergunta sob
juramento. Vai ser perjúrio no Senado americano e vê qual
é a cadeia que você recebe em seguida. Então ele
disse: ‘o Brasil se salvou por si só’. Agora, claro
que os americanos tinham interesse que isso aqui se transformasse em
um Vietnã."
Quem veio primeiro?
"As guerrilhas que já existiam desde 67 – elas são
anteriores ao AI-5 – são outra mentira que se passa aí.
Diz-se que foi o ato que levou à guerrilha. As guerrilhas é
que levaram ao ato. Pois bem, se não tivéssemos pacificado,
você tem hoje um exemplo perfeito para comparar: a Colômbia
não mexeu numa só liberdade, não fez censura à
imprensa, não tirou habeas corpus, manteve tudo. Há 41
anos, ela tem as chamadas Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia, que são comunistas. Eu nem sei se o próprio
Costa e Silva tivesse vivido, se ele teria se dado bem. E depois que
o Fidel Castro não pôde mais financiar a guerrilha, porque
perdeu a pensão que recebia da União Soviética,
eles foram se juntar com o narcotráfico. Hoje, as FARCs têm
mais dinheiro do que o exército colombiano. Olha a história
outra vez. Eu aprendi uma frase da história que eu acho muito
bacana: ‘A história é um facho de luz que se joga
sobre o passado para evitar que cometamos os mesmos erros’."
Império das circunstâncias
"Com o final do ciclo militar, eu me sinto perfeitamente à
vontade. Acabei virando amestrador de víboras, comecei a falar
com o pessoal da esquerda radical, e eles acabam sendo simpáticos.
Não porque eu tenha cedido, mas, sim, porque eles compreenderam
a minha posição. Eu tenho as mãos limpas. Eu não
apertava uma só, porque era na televisão, porque era do
Fernando Henrique, eu vou logo é com as duas. As minhas mãos
estão livres do sangue dos meus adversários e do dinheiro
roubado da corrupção.
Eu podia ter mágoas, porque em 63, no Pará, no Sindicato
de Petroleiros, meu irmão mais velho e outros petroleiros, sem
uma palavra de discussão, foram apunhalados por um comunista.
Apunhalados pelas costas inclusive. Felizmente não matou, porque
não passou daquilo, os próprios companheiros – mulheres
que estavam juntos com eles, bateram no sujeito. Ele estava com um punhal
escondido.
Eu podia ter trazido esse ódio, e não trouxe. Nunca pratiquei
uma violência contra ninguém e não discuto esse
problema dos que tiveram de fazer. Se foi com eles, com a consciência
de cada um e com a sua obrigação militar, brincadeira
é não fazer. Negócio de tortura, falar muito bem,
mas nós inventamos a tortura? A Alemanha, com a Gestapo torturou,
a França na Indochina torturou, na Argélia torturou, os
Estados Unidos no Vietnã torturaram e foram torturados. Eles
todos fizeram isso. Agora, com isso, eu vou justificar? Eu digo apenas
que é um império das circunstâncias".
Saldo
"Quando se compara o ciclo – eu não chamo regime militar,
regime militar eu vi no Peru. O nosso foi um regime autocrático
a partir do AI-5, apoiado enormemente em tecnocratas do maior valor:
Roberto Campos, Bulhões de Carvalho, Delfim Netto, João
Paulo Velloso, Mário Henrique Simonsen, toda essa gente. Nós
conseguimos entregar o Brasil, quando acabou o ciclo, em melhores condições.
O Brasil era a oitava economia do mundo. O PIB crescia a 12% ao ano.
A inflação estava em 12% na sua redução,
12% ao ano. Os maiores índices indicadores da economia brasileira
foram no período do Médici. A oitava economia do mundo
hoje é 12ª ou a 13ª, já vai cair para 13ª.
A dívida externa brasileira era de US$ 12 bilhões. Nos
tínhamos US$ 6 bilhões de reserva líquida e conceito
de caixa. Então, a dívida líquida (dívida
bruta menos o conceito de caixa que você tem de reserva) era de
US$ 6 bilhões. As exportações passavam de US6 bilhões
de dólares. Em nove meses, digamos um ano, nós pagamos
a nossa dívida externa.
Nós não tínhamos praticamente dívida interna,
porque as ORTN’s que o governo utilizava eram poucas. Hoje, você
tem uma dívida interna de quase R$ 700 bilhões e uma dívida
externa de US$ 280 bilhões. Nós entregamos o poder com
excelente resultado. Os Correios passaram a ser iguais aos correios
do primeiro mundo e temos o telefone via satélite. Colocamos
o país na condição de 6º produtor de aço
do mundo, colocando as estradas, completamos aquelas estradas todas
que Juscelino tinha aberto. A Belém-Brasília, por exemplo,
foi asfaltada pelo Andreazza. E ele ainda criou depois a Perimetral
Norte e colocou depois a de Brasília a São Paulo, de São
Paulo a Porto Velho, de Porto Velho ao Acre. Hoje, você não
anda numa estrada que não tenha buracos. A televisão,
toda dia, mostra a situação das estradas: é uma
sucessão interminável de buracos, de desastres.
Quem foi que primeiro tratou do trabalhador rural? Foi o regime militar.
E não tínhamos, inclusive, depois, nem do ponto de vista
da política externa, mais nenhum tipo de aliança automática
com os Estados Unidos. O próprio Castelo, que era acusado disso,
aceitou ir para Santo Domingo, mas, quando chegou ao Vietnã,
ele disse: ‘Não. Está fora do meu plano, do meu
horizonte. E o Geisel denunciou o acordo militar. O Médici fez
as 200 milhas da soberania e depois foram modificadas.
Então essa comparação é enorme. Agora, tem
o lado negativo, a vertente política é que foi ruim. Porque,
tendo que utilizar o regime autoritário, as liberdades foram
sacrificadas. Apregoamos o quê? Outro dia, escrevi um artigo dizendo:
‘Fizemos a anistia, mas levamos 14 anos para fazer’. Eu,
por exemplo, era partidário do governo passado, no fim do governo
Médici, de entregar o poder aos civis. Tínhamos os melhores
resultados econômicos, o Médici era indiscutivelmente popular".
Pais dos pobres
"O Juscelino Kubitschek foi para mim um dos últimos presidentes
que tiveram a alegria de ser presidente. Transmitia isso para todos
nós, não? Qual é o marco diferencial entre Juscelino,
com sua reforma agrária, e os militares? Nenhum. O que houve
foram desapropriações e entrega das áreas, se você
pegar o número de desapropriações feitas até
Figueiredo, foi muito grande.
O ciclo militar, no meu entender – eu, que sempre fui favorável
à reforma agrária, não na marra, porque a reforma
agrária era lei –, foi o que fez o melhor projeto que já
houve nisso, o Estatuto da Terra, do presidente Castelo. Se tivesse
sido continuado, nós hoje tínhamos uma feição
fundiária do Brasil completamente diferente. O estatuto acabava
com o latifúndio improdutivo pelo imposto progressivo. Infelizmente,
aí, sim, talvez tenha havido pressões da área produtiva
conservadora, que impediram que o Costa e Silva desse prosseguimento.
A miséria cresceu no Brasil durante todo esse período,
e a migração para os grandes centros urbanos também".
História mal contada
"O historiador não pode ser faccioso e não pode ser
totalmente neutro. O que eu tenho visto ultimamente é que se
está reescrevendo a história sob um ângulo totalmente
faccioso. Reescrever a história é muito importante, porque
tem que haver o contraditório, como existe em Direito, e eu não
estou notando isso. E há os entreguistas. Negam na íntegra.
Em 20 anos, nós não fizemos nada de bom, nada. Então,
isso aí é que precisa ser objeto de uma revisão.
Bolsos
"Dos meus cinco presidentes militares, eu só faço
um resumo: todos morreram. Nenhum foi rico, nenhum ficou com o dinheiro
da nação no bolso dele. Eu olho para o lado, olho para
os vizinhos nossos, na América latina, que seja, e você
não encontra um nome dos nossos que possam ser apontados ‘Olha,
esse é igual a Somoza, esse é igual a não sei quem.
O próprio Perón, depois de 18 anos no exílio, quando
foi derrubado, os militares que o depuseram publicaram coisas terríveis
contra ele do ponto de vista da moralidade pessoal.
Os militares brasileiros honraram a farda que vestiram e as funções
que exerceram. Não furtaram. No passado, ouvia falar muito no
Juscelino, em cujo governo eu exercia a primeira função
fora do Exército, na Petrobrás, no Pará. Era um
estadista extraordinário, um homem que o fez o Brasil acreditar
em si próprio. Sofreu, acabou sofrendo. Então é
o momento difícil da gente analisar uma questão como essa,
porque acaba não falando de quem deve falar e pode não
fazer justiça sobre aquele de quem falou".
Influência de Cuba
"Só longinquamente houve influência de Cuba para o
Golpe. Em primeiro lugar, em 59, o único comunista era o Che
Guevara. Fidel não era comunista. Poucas pessoas na história
se dão conta disso. O partido comunista cubano era aliado do
Fulgêncio Batista, quando Fidel Castro e Che fizeram os primeiros
assaltos em quartéis militares. O americano foi, em grande parte,
responsável por que Fidel Castro se voltasse para a União
Soviética, porque ele tomou a iniciativa de desapropriar as firmas
americanas, que eram proprietárias praticamente de Cuba, inclusive
de todo o tabaco.
Cuba era uma espécie de bordel – e está voltando
agora a ser claramente. Ele queria tomar posições que
eram revolucionárias. Mas o Senado americano jamais concordaria
com o governo de Cuba que fosse desapropriar empresas americanas. Há
uma fotografia do Fidel Castro sendo objeto de papel picado caído
em Nova York, sendo saudado pelo grupo que era partidário da
democracia. Em dezembro de 61, ele se declarou comunista. Ele não
era.
Bom, então, mais tarde você vai ver – inclusive tem
um livro pequeno de uma historiadora, Denise Rollemberg, que fala sobre
como Cuba ajudou as guerrilhas no Brasil. Aí é que começa.
Então, desde já em matéria de 67, antes disso,
no governo do Jânio Quadros, a China Comunista já treinava
guerrilheiros no Brasil, no grupo de Mao Tse Tung. Por quê? Porque
não estava interessado se o governo do Brasil era do Jânio
ou do João Goulart. Eles queriam era ocupar o poder para aumentar
o movimento comunista internacional".
Escrúpulos e favas
"A partir do A-5, eu não tinha dúvida, era um regime
autoritário, apesar de alguns dizerem que não era. Era.
Quando eu votei no AI-5, por exemplo, eu disse: ‘À vossa
excelência, presidente, eu me recuso a enveredar pelo caminho
da ditadura, mas, se eu não tenho alternativa, às favas
o meu escrúpulo de consciência’. Isso aconteceu exatamente
no dia em que eu tinha entrado num processo para ser antigolpista. Eu
queria defender a Constituição, e agora eu entrava nas
veias da Constituição. O AI-5 foi um momento muito difícil
para mim.
O Marcito (o então deputado federal Márcio Moreira Alves)
não era muito bem quisto no seu próprio PMDB, porque o
estilo dele, a personalidade dele, não eram muito simpáticos.
O discurso feito por ele, em setembro de 68, deixou os militares indignados,
ele disse que as mulheres não poderiam namorar os fardados. Ele
tomou isso das mulheres de Atenas, que resolveram fazer greve sexual
contra seus maridos por causa da guerra que elas não queriam.
Mas não era só isso, não. O pivô da história
foi quando ele fez o discurso em que disse que ‘as Forças
Armadas tinham virado valhacouto de bandidos’. Ah, isso chocou
a hierarquia militar. Exército, Marinha e Aeronáutica
passaram ser ‘valhacoutos de bandidos’. Olha, isso foi em
setembro. O AI-5 só foi editado em dezembro. Não conseguimos
autorização da Câmara para processá-lo –
acho que, se eu estivesse lá, se fosse deputado, também
votaria contra a cassação. Recorremos ao Supremo Tribunal
Federal, que negou o pedido de cassação. Pelo menos desmoralizamos
o princípio de que ‘quem pode o mais, pode o menos’.
Quem não pode menos, acabou podendo mais: fechou o Congresso".
Guerra suja
"A guerra, toda ela, contra a guerrilha (do Araguaia), toda ela
foi uma guerra que não acompanhou a convenção de
Genebra: foi chamada de guerra suja. Assim como houve violência
de um lado, houve violência do outro lado. Tortura eles não
praticaram, porque não precisavam torturar. Ela é suja,
e talvez por isso mesmo tenha sido incinerada" (ele se refere aos
documentos referentes à Guerrilha do Araguaia).
Educação
"Há gente que fala que o movimento de 64 impediu o progresso.
Sabe quanto eles aplicavam na educação? Eram 2,1% do PIB
(Produto Interno Bruto) daquele tempo. Sabe quantos estudantes universitários
o Brasil tinha? Não vou citar o IBGE, vou citar o anuário
estatístico da Unesco em relação ao fim de 63,
quando o anuário era de 65, mas de 64 cabia os dados: o Brasil
tinha 132 universitários para cada 100 mil habitantes. A Argentina
tinha 712; o Chile e o Uruguai, mais de 600. Quais eram os países
piores que nós? Só Haiti, Honduras e Guatemala. Nós
tínhamos um ensino secundário que era 74% pago. Foi mudado
ao reverso, setenta e tantos por cento de oferta pública. Passamos
a aplicar na educação 4% do PIB, não 2%, de um
PIB que tinha crescido como tinha crescido nesse período de 67
para cá, até a 9% no mínimo, naquele período
de Costa e Silva".
Lula mudou
"O presidente Lula nunca foi comunista. Nunca foi. No primeiro
debate que eu tive com ele pelo rádio, ele me disse: ‘Eu
sou torneiro mecânico’. Eu disse: ‘Este é vivo’.
Mas ele nunca assinou sua filiação a nenhum partido de
esquerda. Foi levado pelo irmão a participar da luta sindical,
mas nunca manifestou que era comunista. Eu ainda digo que o Lula de
2002 me deu muita alegria, quando verifiquei que ele não era
uma farsa do Lula de 1989, que queria fazer frente ao FMI, não
pagar a dívida externa e pregava a violência e o revanchismo.
O Lula que está ai é completamente diferente, houve uma
evolução".
Golpes, nunca mais...
"Não há possibilidade, de jeito algum, de haver novos
golpes no país. A experiência foi suficiente. Hoje eu digo
brincando: ‘Não se dá golpe mais nem no Paraguai’.
O da Venezuela mostrou isso. Derrubaram o Chavez e 48 horas depois ele
voltou. É preciso partir do princípio de que o poder civil
é que é o poder prevalente, e que os militares devem ser,
portanto, profissionais: cuidar da sua responsabilidade constitucional.
Qual é ela? A defesa do País, a defesa da nação
no sentido de ameaça externa e o problema da ordem interna. A
ordem interna outrora poderia dar margem a essas rebeliões.
Um governo civil infelizmente cai nas mãos de pessoas desastradas,
como, por exemplo, o Jânio Quadros. Quando é que se esperava
que, seis meses depois, ele fizesse aquilo? E acabou confessando para
o neto que o que fez, na verdade, foi uma manobra para poder voltar
com mais força, trazido nos braços do povo e fazer uma
reforma na Constituição que lhe desse poder praticamente
autoritário. Aí vem outro, que tem uma mente de demagogo...
Nós já amadurecemos. Mesmo nessa posição
atual, o que há é uma consciência de que o que deve
ser feito é esperar a próxima eleição".
Resistência
"Só me sinto solitário porque estou viúvo.
Essa é a minha solidão, duas alianças no meu dedo
há 16 anos. Há momentos em que isso me dói como
o diabo. Mas, solitário por ter deixado o poder, ao contrário.
Quando saí do Ministério da Educação, eu
corri para casa - que nesse tempo tinha uma piscina - e fui tomar banho
de piscina satisfeito, porque as pressões que tinha naquele momento
desapareciam. Agora olho para trás e realmente tenho pena dos
que talvez não tenham ultrapassado a fronteira dos 80 anos. Morreram
muito antes. Estamos vivos eu. O Delfim Netto, o João Paulo Reis
Veloso. Eu olho para trás e não vejo ninguém vivo
e não estou querendo olhar olhar muto para trás para eles
aparecerem como espírito. Estão lá e eu aqui. E
os ministros militares, todos. O comandante do II Exército, que
causou aquela história do ato terrorista, morreu também.
Então eles se foram. Eu (parafraseando Churchill) estou pronto
para prestar minhas contas com o Senhor e espero que ele não
tenha pressa". |