| Deigma
Turazi/ABr
Brasília
- O presidente do Congresso Nacional, senador José
Sarney (PMDB-AP), era deputado federal em 1964. No fim de
março, fervilhavam na Câmara informações
sobre o golpe militar e o jovem deputado sentia-se como
alguém "no meio do furacão, mas sem saber
exatamente o que estava ocorrendo". O partido de Sarney
(UDN – União Democrática Nacional) apoiou
o movimento desde o começo, mas o senador diz que
não participou de qualquer conspiração.
Governador do Maranhão em 1965 e presidente da República,
em 1985, com a morte do presidente eleito Tancredo Neves,
Sarney orgulha-se hoje, aos 74 anos, de pertencer à
Academia Brasileira de Letras. Em depoimento à Agência
Brasil, Sarney revela admiração pelo presidente
Castello Branco, o primeiro do ciclo militar, que considera
a figura mais importante do regime. "Se não
fosse ele, teríamos baixado para uma quartelada terrível
no Brasil", afirma o senador.
Perplexidade
"Nos dia 31 de março e 1° de abril, estava
na Câmara Federal. Vivíamos um momento de grande
perplexidade. Ninguém sabia o que estava ocorrendo,
pois não tínhamos a televisão de hoje,
em que os fatos são instantâneos, reproduzidos
em tempo real. O mundo do boato, do faz-de-conta, era muito
maior do que os fatos, que hoje são vistos com clareza.
A não ser as pessoas que estavam envolvidas e tinham
notícias diretas, ninguém sabia exatamente
o que estava ocorrendo, até o momento dramático
em que se anuncia a saída de Jango do país
e (Ranieri) Mazzilli toma posse como presidente. Eu estava
naquela sessão, vi e vivi aquele momento dramático".
Opinião pública
"Não participei das articulações
que levaram ao golpe de 64. Havia uma área política
grande que apoiava e conspirava, mas eu não fazia
parte dela. Tanto que, no dia 19 de março, havia
feito um discurso assim meio fora do contexto, aparteado
por deputados de ambas as correntes, pedindo a conciliação.
Hoje posso ver que, naquele tempo, era uma coisa totalmente
fora, porque as paixões desencadeadas eram tão
fortes que inevitavelmente iriam ter o desfecho que tiveram.
Por sua própria estrutura, o governo de Jango, um
vice-presidente que assumiu no meio de uma condição
dramática, era alvo de muitas restrições.
Vinha desde o governo Vargas e não teve a capacidade
de unir as forças políticas do país,
nem de atravessar aquele período. Assim, seu governo
foi se enfraquecendo cada vez mais e, em 64, havia uma total
paralisia nacional e a opinião pública era
toda contra o governo.
É muito difícil recompor o clima daquele tempo.
O mundo era marcado pela luta entre comunismo e capitalismo,
e a América Latina estava envolvida em movimentos
populares em torno dessas ideologias. Tínhamos saído
da crise dos foguetes de Cuba, que quase levou a humanidade
a uma guerra nuclear, e foi nesse contexto que o governo
Jango mostrou sua incapacidade de administrar aquele momento.
Em conseqüência, foi perdendo gradativamente
os apoios políticos e militares que podia ter. E
chega-se, inevitavelmente, a um momento no qual, mais uma
vez, os militares intervêm na política brasileira,
como vinham fazendo desde a fundação da República,
agindo como se tivessem poder de juízes no meio das
crises políticas".
Embate entre militares
"A revolução teve duas vertentes: uma
militar e outra civil. A civil girava em torno de Castello
Branco, e a militar, em torno do marechal Costa e Silva.
Foi a mesma coisa que aconteceu na República, entre
o Floriano e o Deodoro. Castello Branco foi escolhido porque
era apoiado por políticos como Carlos Lacerda, boa
parte dos governadores da UDN, como Magalhães Pinto,
e o paulista Adhemar de Barros. Grandes estados apoiaram
Castello, ele tinha um compromisso democrático de
restaurar o processo político, que estava sendo truncado.
Achava-se isso. Não se trata de um juízo de
valor: estou apenas prestando um depoimento sobre o que
se falava e o que se assistia aqui, naquele tempo.
Começa a luta entre os militares da linha dura e
aqueles grupos políticos. Os militares vencem porque
Castello, depois da tentativa de promover eleições
em 65, foi incapaz de realizar as eleições
presidenciais, que viriam em seguida. Aí, a linha
dura toma conta realmente do poder e os 21 anos do regime
vão ser marcados por essa luta entre os militares
da linha dura e os que querem a restauração
democrática, até que as idéias de Castello
renasçam com Geisel, que inicia a abertura política,
mas com aquele mesmo espírito autoritário".
Capital estrangeiro
"Uma das grandes discussões no país,
à época, era sobre o capital estrangeiro.
Logo que cheguei ao Congresso, como deputado, um dos primeiros
projetos que fiz foi para regulamentar a participação
do capital estrangeiro. Nosso medo era a invasão
do país, eram essas as idéias daquele tempo,
e hoje vemos as coisas sob uma perspectiva diferente. Naquele
tempo, portanto, a preocupação era justamente
essa, e os debates versavam sobre o controle do capital
estrangeiro no Brasil, que era apoiado entusiasticamente
por todas as alas da UDN. E não só esta proposta,
mas apoiávamos também toda a retórica
das reformas pregada pelo Jango, pelo menos no meu grupo.
Éramos da Bossa Nova da UDN".
Monitorando o Golpe
"A participação dos Estados Unidos no
golpe de 64 ainda hoje alimenta as discussões, a
partir de documentos liberados pelo Departamento de Estado
Americano e pesquisados por historiadores. Se tais documentos
não dizem que os Estados Unidos participaram do processo,
ao menos esclarecem que eles acompanharam o golpe muito
de perto, monitorando seus desdobramentos. A historia vai
se abrindo com o tempo e revelando seus segredos".
Castello, o melhor
"Em 65, fui eleito governador do Maranhão, como
candidato da oposição. Fui, portanto, contra
o AI-5 e o único governador a tomar uma atitude efetiva,
ao passar um telegrama ao presidente Castello Branco, manifestando
a esperança de que o regime democrático fosse
instalado no país. Isso me custou muitos problemas,
mas continuo achando que a importância do Castello
Branco no processo foi fundamental para que não tivéssemos
uma quartelada terrível no Brasil. Foi ele quem deu
essa aparência que delimitou o golpe. Ele estabeleceu
uma coisa inacreditável: a eleição
de um ditador de quatro em quatro anos. O candidato tinha
de se inscrever e era eleito por nós, no Congresso,
embora as decisões fossem tomadas dentro dos quartéis.
Tinha liberdade de imprensa, ao mesmo tempo em que não
tinha. Era um processo complicado, mas o presidente Castello
Branco, por suas intervenções, tornou-se a
figura mais importante do período. A tal extremo,
levou suas decisões que evitou a prorrogação
de seu mandato, garantindo que não continuaria nem
um dia a mais porque queria que houvesse alternância
no poder".
O caminho da volta
"Todos sabem como os processos começam, mas
ninguém pode prever como terminam. Ninguém
podia prever a duração do golpe. A preocupação
de todos era que a saída não se constituísse
num processo traumático, duro, como já aconteceu
em alguns países aqui da América Latina, como
o Chile, que teve uma transição tutelada pelos
militares, e a Argentina, que também enfrentou problemas
muito sérios. Nossa grande preocupação
era sair do processo sem maiores traumas e sem divisão
da sociedade brasileira. Acho que conseguimos isso. O Geisel
foi importante nesse processo de abertura. Quando a classe
civil tomou conta, restauramos não só as instituições
democráticas, como também criamos uma sociedade
democrática, que é o mais importante para
o Brasil. Isso significa que o país não ficou
rachado, dividido, cobrando hipoteca sobre o passado daquele
tempo.
Conseguimos reconstruir o país, e reconstruir dentro
de uma sociedade democrática, a partir então
de 85, e eu nunca pensei que fosse a pessoa a comandar esse
processo. Acabamos com a censura, garantimos a liberdade,
promovemos a reestruturação dos partidos políticos
e toda a clandestinidade desapareceu. Os grupos políticos
que viviam na clandestinidade foram todos eles legalizados,
um clima de liberdade floresceu em todo o país. Com
a convocação da Constituinte, a sociedade
se organiza e, num sistema de capilaridade, derrama-se sobre
todo o sistema social do país. Hoje somos uma das
democracias mais sólidas, não somente em razão
das instituições, mas sobretudo porque temos
uma sociedade democrática. Basta saber que todo dia
estamos vendo como a sociedade se organiza, como protesta,
como influencia, como procura decidir.
Eu quero puxar a brasa um pouquinho para a minha sardinha
e dizer que isso começou com o Plano Cruzado, quando
tive a oportunidade de dizer ao povo brasileiro: 'Você
é fiscal do Sarney, você é fiscal do
governo'. Então, cada brasileiro passou a ter noção
de que era influente dentro do processo de decisão.
Aí, entram as leis do consumidor, todo esse processo
de organização da sociedade, com todo mundo
se organizando, clube, sindicato. E isso fez com que o Brasil
se transformasse no que todos nós hoje estamos vivendo.
De tal modo que chegamos ao final, já no meu governo,
em que um operário foi candidato à Presidência
da República, o Lula, que chegou perto, bem perto
de ser presidente, o que acabou acontecendo mais tarde.
Esse é o processo que o Brasil foi capaz de conduzir
e que nós, políticos, podemos dizer que construimos".
Construindo pontes
"Durante o regime de 64, havia um grupo que sempre
pugnou por uma saída democrática, construindo
essa saída com pontes dentro da oposição.
Mesmo no tempo em que eu, Ulysses (Guimarães), Tancredo
(Neves) e (Nelson) Marchezan, fazíamos parte do ‘sacro
colégio’, eu me reunia com outros como Teotônio
(Vilella), (Daniel) Krieger, Petrônio (Portella),
para, numa conspiração do bem comum, atravessar
crises. E, graças a essa união, foi possível
chegar até onde chegamos hoje".
Herança
"Acho que não podemos analisar, em termos de
herança, o legado econômico da ditadura. Aquele
foi um período em que o país teve recursos,
mas teve também a revolução da Opep
(Organização dos Países Produtores
de Petróleo), que promoveu a valorização
dos preços do petróleo e gerou os petrodólares.
O país se endividou para construir grandes obras,
que foram importantes para todos. Um exemplo é o
setor elétrico, em que se construiu uma obra extraordinária.
O que seria do Brasil, se hoje nós não tivéssemos
esse parque energético, construído ao longo
desses anos, como Itaipu, as grandes obras hidrelétricas?
A infra-estrutura construída com o dinheiro internacional
foi a responsável pelo crescimento da divida externa.
É fato, portanto, que tenhamos herdado uma dívida
externa grande, que impediu a construção de
obras que o povo esperava. Daí porque o meu governo
foi marcado justamente por uma construção
política muito mais importante, porque a economia
é transitória, mas as instituições
políticas são definitivas. A partir daquele
tempo, construímos uma grande obra política
que está até hoje resistindo e se consolidando
como um patrimônio para o Brasil".
Sem ressentimentos
"Eu nunca guardei ressentimento por não ter
recebido a faixa presidencial do meu antecessor (João
Figueiredo, último presidente do regime militar).
O ressentimento é coisa negativa, que faz muito mal
às pessoas. Não é do meu temperamento
ficar ressentido. O importante para todos nós era
que o Brasil estava atravessando um momento dramático
de transição e que, com o Tancredo doente,
não se sabia o que podia ocorrer. O importante era
que nós não interrompêssemos o processo
político, que déssemos continuidade a ele,
e foi possível fazer isso. A faixa era uma coisa
simbólica, que não pesou. Se o Figueiredo
saiu do Planalto pelos fundos, eu passei a faixa a meu sucessor
e saí pela frente".
Gerir o processo
"Dos governos anteriores à revolução,
destaco Juscelino, pela grande obra que fez. Um presidente
que tinha o espírito brasileiro, aquele espírito
aberto, que cultivava a alegria, o otimismo, mas também
foi marcado pelo processo político. Basta lembrar
que, para assumir, foi preciso o general Lott aparar o golpe
de 55, além dos dois movimentos em Aragarças
querendo sua deposição. Eu acredito que Juscelino,
quando fez Brasília, fez um pouco do que Dom João
VI havia feito quando veio de Portugal para o Brasil, porque,
se ficasse lá, teria sido deposto pelas tropas de
Napoleão. Se Juscelino ficasse no Rio, o caminho
dele também passaria inevitavelmente por mais uma
ruptura democrática. Então, ele constrói
Brasília, com grande competência, o que faltou
a Getúlio Vargas, em 50.
Sem capacidade para gerir o processo político, Getúlio
foi perdendo apoios e chegou a tal ponto que foi obrigado
a se matar. Juscelino, ao contrário, entrou no processo
envolvido por grandes dificuldades, mas conseguiu construir
Brasília, restaurar a confiança nacional e
contornar os problemas militares. Alguns presidentes foram
marcados para ser depostos. Juscelino entrou para ser deposto,
mas não foi. Eu também entrei para ser deposto.
Não fui e terminei o governo. Há um discurso
em que Juscelino diz: ‘A maior obra que eu fiz foi
ter evitado que o Brasil tivesse mais uma ruptura no processo
institucional’. Essa era uma preocupação
muito relevante no passado, porque o presidente tinha de
buscar a legitimação e ser capaz de manter-se
no poder para evitar que se truncasse o processo institucional.
Jânio (Quadros) não teve essa capacidade. Ele
chegou à Presidência com todo apoio nacional,
mas, diante das pressões e dos problemas, renunciou.
O Jango também não teve condições
de superar as pressões e controlar os processos.
Portanto, minha grande preocupação era justamente
essa: chegar ao fim do mandato administrando as tensões
e pressões. Até porque, como vice-presidente,
sem apoio político, com um ministério todo
que eu não conhecia, tinha de administrar um programa
que também não conhecia, nem tinha organizado.
Com um país efervescendo, mas conhecendo o processo
político e o que tinha acontecido com meus antecessores,
convoquei a Constituinte e consegui chegar ao fim do mandato,
entregar a faixa a meu sucessor e ver o Brasil com uma democracia
consolidada". |