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Deigma
Turazi/ABr
Brasília
– Do movimento operário à resistência
universitária à ditadura militar, a reflexão
intelectual nasce da experiência de luta política,
na biografia do eletrotécnico e economista Paul Singer.
Nascido na Áustria, em 1932, numa família
de pequenos comerciantes judeus, chegou ao Brasil em 1940.
Nos anos 50, formado eletrotécnico, trabalhou em
indústrias paulistas e militou no Sindicato dos Metalúrgicos
de São Paulo. Foi um dos líderes das greves
de 1953. Em 1954, filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro
(PSB). Fez o curso de ciências econômicas e
administrativas da Universidade de São Paulo entre
1956 e 1959.
Na década de 60, tornou-se professor da universidade,
até ser aposentado compulsoriamente após o
Ato Institucional número 5, em 1968. No ano seguinte,
com alguns dos demais colegas expurgados, em particular
aqueles com quem tinha estudado a obra máxima de
Karl Marx, "O Capital", fundou o Cebrap (Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento). Foi, em 1980,
um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Na gestão
de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo (1989-92),
foi secretário de Planejamento. Atualmente, dedica-se
a uma nova militância, pela economia solidária,
espécie de realização do socialismo
no plano da economia. Desde o ano passado, é responsável
pela Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes),
no Ministério do Trabalho.
Em depoimento à Agência Brasil, Singer fala
sobre sua vivência no movimento operário, um
dos principais alvos da repressão militar após
o golpe de 1964. Também lembra a perseguição
aos professores "democratas" nas universidades,
durante a ditadura, e rememora a convivência com um
dos principais artífices da política econômica
dos militares, Delfim Netto. Leia a seguir os principais
trechos do depoimento, concedido em seu gabinete em Brasília.
Apelos ao golpe
"No 31 de março, eu estava em São Paulo,
trabalhando na Universidade de São Paulo. Eu era
professor jovem lá, acompanhávamos com muita
emoção os acontecimentos políticos.
Havia uma campanha aberta de derrubada do governo do João
Goulart, do governo constitucional. Havia apelos diários
da imprensa e das emissoras de televisão às
Forças Armadas para darem o golpe. O golpe, então,
era objeto de uma campanha e, por outro lado, havia uma
reação legalista, no sentido de defender o
regime democrático.
Eu estava na faculdade quando alguém me encontrou
e disse: ‘Minas Gerais saiu do Brasil’. Ou seja,
o governador de Minas Gerais tinha proclamado independência
em relação ao Brasil. Era uma coisa estranhíssima,
porque Minas é um dos poucos estados brasileiros
que nem dá para o mar, é mediterrâneo,
é totalmente contido no território brasileiro.
Era evidentemente uma coisa estapafúrdia.
Logo em seguida, acompanhando o noticiário, a gente
percebeu que aquilo era, na verdade, o início do
golpe militar. A partir da proclamação do
governador Magalhães Pinto, as tropas de Minas Gerais
começavam a marcha sobre o Rio de Janeiro e depois
houve outras movimentações de tropa. Gradativamente,
os comandantes dos diferentes exércitos brasileiros
foram se colocando pró ou contra o movimento. Entre
nossos amigos, a impressão geral era a de que o golpe
teria malogrado. Pensávamos que o dispositivo de
defesa do regime, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica,
seria superior e que, portanto, o movimento não levaria
a nada. Estávamos, infelizmente, enganados".
Resistência limitada
"Esperava-se uma guerra. Havia, dos dois lados, a idéia
de que haveria resistência, militar e civil. Havia
um movimento popular em ascensão. As Ligas Camponesas,
que nasceram no Nordeste, estavam se espalhando pelo Brasil
inteiro. Havia movimentos de ocupação de terras.
Como o MST hoje, não nas dimensões do MST,
mas havia esporadicamente, no Rio Grande do Sul, em Minas
Gerais, no Nordeste, o que levou Celso Furtado a escrever
um livro chamado ‘A Pré-Revolução
Brasileira’.
Havia um clima de que algo teria que mudar profundamente,
com uma forte intervenção de um movimento
popular e operário. Então, com o golpe, se
esperava isso. Na verdade, a resistência houve. Mas,
ela foi bastante limitada. A principal foi a greve das ferrovias,
houve greves em alguns outros setores, mais ou menos curtas,
durante o próprio 1º de abril. A gente acompanhou
isso com paixão. Mas, no dia 2 de abril, praticamente,
o golpe já havia vencido, e a resistência civil
tinha cessado".
Cotidiano
"A vida universitária e econômica não
foi perturbada. Foi um golpe pacífico. Setores das
Forças Armadas que ainda eram contra o golpe acabaram
se reunindo ao redor do Palácio em Porto Alegre.
Leonel Brizola assumiu a liderança da resistência,
isso durou, enquanto eu me lembro, poucos dias. A vida cotidiana
lá em São Paulo, e eu acredito que no resto
do País, continuou como se nada tivesse acontecido.
No Nordeste, houve mais repressão, prisão
de lideranças camponesas. Em São Paulo, começou
depois, mas de uma forma extremamente ordeira, ou seja,
as pessoas eram chamadas e se apresentavam e ficavam presas
alguns dias no DOPS (Departamento de Ordem Política
e Social).
Permaneci alguns meses a mais na USP. Eu deveria fazer um
doutoramento, e meu orientador era o professor Delfim Netto
(risos). Durante algumas semanas, ele aceitou esse cargo,
porque o meu professor catedrático estava na Venezuela.
Mas, ele foi convidado a ser o secretário da Fazenda
do governo de São Paulo, depois que o Adhemar de
Barros foi derrubado pelo novo regime, aí ele me
chamou e disse, ‘olha Singer, não vai dar’,
e me devolveu a tese.
Fiquei ainda um ou dois meses dando aula, até que
as condições se tornaram impossíveis.
Voltou então ao Brasil meu professor, Mário
Wagner – eu era o assistente dele. Ele me chamou,
e também aos pais de uma colega minha que estava
com uma bolsa de estudos na Polônia. Disse o seguinte:
‘Olha, pelas regras do jogo, vocês são
de minha confiança, então eu vou me aposentar,
vocês devem se demitir. Essas são as regras’.
E a gente se demitiu".
Legalismo
"O golpe militar foi uma coisa longa, durou 21 anos
e houve idas e vindas. Estava se esperando em 64 e em 65
a normalização da situação política.
Não havia abolição nem da Constituição,
continuava em vigor a Constituição de 46.
Fizeram algumas emendas, e o regime se pretendia um regime
legal, sucessor do Jango. Tanto assim, que o Castello Branco
foi eleito pelo Congresso.
Eu pertencia na época ao Partido Socialista, e toda
a bancada do partido foi cassada, exceto Aurélio
Viana, que era senador pelo Rio de Janeiro. Por que razão
ele não foi cassado, jamais se saberá. Mas,
foi o único que sobrou. E ele teria que votar no
Castello Branco ou não votar. E aí há
um episódio interessante, que nos contou na época.
João Mangabeira, fundador e presidente do partido.
Era uma pessoa que estava velho, no leito de morte. Ele
chamou o Aurélio Viana e disse o seguinte: ‘Olha,
esse golpe vai durar. Nos vamos ter 20 anos de regime militar
no Brasil, e eu insisto que você vote no Castello
Branco. De todos os militares, ainda é o melhor.
É o menos autoritário, talvez nos ajude a
suportar esses 20 anos’. E contra a vontade dele,
contra a unanimidade do partido, que eu não queria
nem pensar nisso, ele votou no Castello Branco, atendendo
ao João Mangabeira em agonia".
Carta-testamento
"Entre o golpe que derrubou Getúlio e o Golpe
de 64, dez anos se passaram mais ou menos, há uma
continuidade. As diretrizes ideológicas são
praticamente as mesmas. São golpes de direita, anticomunistas,
muitos inspirados na Guerra Fria, no sentido de que a esquerda
era uma esquerda russa ou soviética, financiada etc.
Isso tudo depois da revolução cubana. Talvez
o regime militar já tivesse começado em 1954,
se não fosse o suicídio de Getúlio.
O suicídio de Getúlio foi um acontecimento
extraordinário, porque ele mobilizou a população.
Milhões de brasileiros foram às ruas. Só
se repetiu isso em 1984, com a campanha pelas eleições
diretas, novamente vimos massas incríveis se manifestando
nas cidades brasileiras. Mas, a movimentação
de dor e a revolta da população pelo suicídio
de Getúlio foi uma coisa muito forte e os obrigou
a não instituir um regime autoritário. Eles
acabaram deixando que o vice-presidente Café Filho
assumisse.
Mas, as liberdades públicas não foram afetadas.
Foi bem diferente do que aconteceu em 1964, com censura,
com atos institucionais. Que eu me lembre, em 1954, ninguém
foi cassado. Nas eleições de 55 imediatamente
a seguir, o candidato apoiado pelo Partido Comunista, Juscelino
Kubistchek, ganhou as eleições, mas não
iria tomar posse, se não fosse o outro golpe militar,
que foi o do Lott. Mas, eu penso que o golpe do Lott só
foi possível pela nova situação nacional
que se criou, inclusive dentro das Forças Armadas,
que é o resultado da carta-testamento do Getúlio".
Crise de um homem só
"Em 1961, nós temos um episódio de esquizofrenia
absolutamente individual. Não havia nenhuma razão
para o Jânio Quadros renunciar, ele era uma pessoa
desequilibrada, sem dúvida e, no repente, ele resolveu
renunciar, certo de que voltaria sobre os braços
do povo. Ele queria dar um golpe popular, pode-se assim
dizer, um autogolpe, queria eliminar o Carlos Lacerda e
a imprensa que o atacava. Ele não suportava ser criticado
pela oposição. E aconteceu exatamente o contrário,
a população não se mexeu.
Ele veio para São Paulo de Brasília, pensando
que os paulistas estariam nas ruas – ele tinha sido
prefeito e governador de São Paulo. Acho que estava
inspirado pela carta-testamento (de Getúlio Vargas).
Mas, não aconteceu nada disso. O Carvalho Pinto,
que era o governador de São Paulo, foi ao avião,
e ele, no desespero, teve um rompante, parece que agrediu
fisicamente o Carvalho Pinto".
Vices
"Foi um momento muito rico na história brasileira.
De um lado, nós termos passado pelo período
Juscelino. Foi um momento feliz na história brasileira,
não só a criação de Brasília.
Houve um avanço industrial extraordinário,
o slogan do Juscelino era ‘Cinqüenta Anos em
Cinco’. Houve um avanço inédito, quer
dizer, o Brasil saiu de um estágio pra outro, tornou-se
um país realmente industrializado, com indústria
pesada, com muita tecnologia. Enfim, mudou realmente o país,
de vários pontos de vista. E o sucessor dele foi
opositor, foi o Jânio.
Nesse período da história brasileira, de 1945
a 1964, o governo jamais elegeu seu sucessor. Nenhum dos
governos conseguia ganhar a eleição, o marechal
Henrique Lott, que era o candidato do Juscelino, foi fragorosamente
derrotado pelo Jânio. Não que o governo JK
fosse ruim, mas é que o Jânio era muito melhor
como candidato em relação ao marechal Lott.
Com a renúncia do Jânio, entrou realmente o
vice-presidente da chapa do Lott, que era o Jango. Na época,
os eleitores tinham liberdade de votar no candidato a presidente
e no candidato a vice que eles quisessem, hoje não
pode mais, você escolhe o candidato a presidente e
o vice é automático. Esse descasamento foi
organizado, quer dizer, houve uma campanha ‘Janjan’,
Jânio e Jango, eram duas lideranças populares
– populistas, se você quiser.
Só que o Jango era mais consistentemente de esquerda.
E entra com uma restrição, tem que ser o regime
parlamentarista. Houve um semigolpe militar na sucessão
do Jânio para o Jango, as Forças Armadas se
reuniram e se convenceram a permitir que o vice-presidente
se tornasse em exercício, contanto que ele não
exercesse o poder. Então, o Jango foi obrigado, a
trabalhar como Primeiro-Ministro. Mas, ele tinha muita força,
não era rainha da Inglaterra não. Ele escolheu
Tancredo Neves. Começou um período inédito
na história desde o Império, que era um período
parlamentarista.
O que o Jango queria era recuperar os direitos presidenciais,
anular o golpe que o restringia e, para isso, ele se aliou
à esquerda – no fundo, foi isso. Ele realmente
se aliou à esquerda. O Luiz Carlos Prestes, o famoso
líder do Partido Comunista, deu uma entrevista dizendo:
‘Estamos no poder’. Foi a coisa mais inoportuna
que ele podia ter feito. Mas isso assustou as classes dominantes,
os Estados Unidos também: o Partido Comunista estava
clandestinamente participando um pouco do governo, nada
mais do que isso. A partir desse momento, começou
uma campanha anticomunista, visando à derrubada do
Jango. E o Jango foi radicalizando, o movimento com ele
foi se radicalizando.
Nós assistimos à mesma coisa com o Salvador
Allende, no Chile, poucos anos depois. Gradativamente, os
dois lados vão radicalizando as suas posições.
O lado apoiando o presidente exigia uma reforma agrária
mais ou menos radical, a limitação na remessas
de lucros, que seria hoje o rompimento com o Fundo Monetário
Internacional, uma coisa dessa natureza. Se você olhar
friamente, eram proposições mais ou menos
moderadas. mas no contexto, não eram moderadas. E
a oposição não tinha proposta positiva
nenhuma a não ser retirar os comunistas do poder
e garantir com isso a continuidade do regime democrático".
Social em movimento
"Tudo começa em 1950, quando o Getúlio,
pela primeira vez, é eleito pelo voto popular. Ele
foi presidente do Brasil quinze anos, sem jamais ter passado
por uma eleição popular. Em 1950, ele é
candidato de oposição e ganha a eleição,
com um partido muito fraco, que era o PTB, e com o apoio
do Adhemar de Barros. Ele volta nos braços do povo
e com um compromisso de esquerda, que só se revela
na carta-testamento depois da morte dele, ninguém
desconfiava. Ele fez uma política de enormes concessões
à classe dominante. Chamou o Horácio Lafer
para ministro... Fez um governo de coligação,
muitas concessões à direita. Isso levou tanto
o Partido Comunista como o Partido Socialista, os partidos
de esquerda, a rejeitá-lo.
Então, ele veio pela esquerda, mas não tinha
na verdade optado por uma política clara de esquerda.
Uma política ambígua era a marca do Getúlio.
Mas, ele fez uma coisa, ele chamou o Jango (João
Goulart, ministro de Getúlio) e deu liberdade ao
movimento sindical. Eu era muito jovem, entrei no movimento
sindical em 1952, num momento em que o meu sindicato ainda
tinha um interventor. E, na primeira assembléia a
que eu assisti, estava lá o interventor, estava o
delegado Regional do Trabalho, o delegado do DOPS (Departamento
de Ordem Política e Social), dirigindo a assembléia.
Havia um pavor de que os trabalhadores fizessem alguma coisa
indesejável, e os trabalhadores aproveitaram a assembléia
para reclamar bastante.
O Getúlio levantou a intervenção, e
nós ganhamos todas as eleições a partir
daí – sempre a esquerda ganhou no Sindicato
dos Metalúrgicos de São Paulo. Em 1953, fizemos
uma grande greve de várias categorias, que foi mais
ou menos coordenada pelo Partido Comunista, na ilegalidade.
Foi uma greve que parou a cidade, ou seja, o movimento sindical
e o movimento operário tiveram uma extraordinária
ascensão a partir de 52, 53 e isso foi contínuo.
Não se chegou a criar uma central sindical, porque
não era permitido por lei, mas se criaram pactos
sindicais em São Paulo, em Santos, no Rio.
O movimento sindical avançou enormemente também
em função da grande industrialização
que houve no período de Juscelino, da urbanização
e do surgimento de uma nova classe trabalhadora no ABC Paulista,
com a nova indústria automobilística. Era
nova no sentido de que os operários eram novos, o
Lula (o presidente Luiz Inácio Lula da Silva) tinha
acabado de chegar de Pernambuco, mas também no sentido
de que eram empresas de muito maior tamanho. Eu trabalhava
numa das maiores empresas metalúrgicas de São
Paulo, tinha 3.500 operários, era a Elevadores Atlas,
a maior fábrica de elevadores da América Latina.
A Volkswagen, se eu não me engano, tinha 20 mil trabalhadores,
era outra dimensão, inclusive na luta de classes
interna na empresa. Ele conseguiam formar conselhos com
a adesão da empresa, era outro papo, e isso foi exatamente
a passagem de um sindicalismo que já era bastante
avançado por um sindicalismo ainda muito mais".
Vanguardas
"Eu já era professor universitário em
1961, quando entrou o Jango, mas, como eu era do Partido
Socialista, eu mantinha uma relação muito
próxima aos sindicalistas, e o movimento sindical
ganhou uma dimensão muito forte. Eu me lembro da
greve geral que a gente fez em apoio às reformas
de base. O movimento sindical era uma das vanguardas de
um processo que se supunha que poderia ser revolucionário.
Também os camponeses, com as Ligas Camponesas, e
as várias entidades de unidade sindical, lideradas
por partidos de Esquerda. Havia divisões de esquerdas
mais ou menos radicais, mas, dentro do movimento popular,
havia unidade".
Metas e planos
"O que nós temos, em termos de planejamento,
pré 64, realmente importante, é o Plano de
Metas. O Getúlio usou ali a inteligência do
governo federal. Principalmente do BNDES (Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social), muita gente
de grande gabarito e que tinha informações
e capacidade de planejar regionalmente o país. A
Sudene (Superintendência de Desenvolvimento da Região
Nordeste) surgiu na época do Juscelino, vários
importantes ramos, não só a indústria
automobilística, a indústria de tratores,
a indústria de adubos, enfim, o país se tornou
muito auto-suficiente em termos industriais. Isso foi planejado.
Começou no Getúlio. O GEIA (Grupo Executivo
da Indústria Automobilística) foi criado ainda
na época do Getúlio. Com a morte dele e a
substituição do Café Filho, por todo
esse período, isso ficou parado. Juscelino retomou
o GEIA com as mesmas pessoas e trouxe a indústria
automobilística para o país. Não foi
muito democrático, era um planejamento feito nos
gabinetes de Brasília, no BNDES principalmente, no
Ministério da Indústria e Comércio.
O método era formar grupos executivos muitos poderosos,
que chamavam a indústria privada etc. para viabilizar
os saltos que o plano exigia.
O próximo passo do planejamento foi o Plano Trienal,
que não passou do papel. Celso Furtado, convidado
por Jango, faz um plano de recuperação sobretudo,
em curto prazo, porque havia uma crise enorme no balanço
do pagamento. O Brasil estava inadimplente, não conseguia
rolar as dívidas de curto prazo que o Juscelino tinha
deixado e havia uma enorme pressão inflacionária.
Então, o Jango procura combinar uma política
muito semelhante à do ministro Antonio Palocci, com
corte de gastos públicos etc. Ele faz no plano trienal
uma defesa apaixonada da reforma agrária, como forma
de criar mercado interno, viabilizar o crescimento de longo
prazo no Brasil.
Não foi o golpe militar que impediu que o plano fosse
feito, foi um pouco a inconsistência do próprio
Jango. Ele usou o Plano Trienal como bandeira, mas não
permitiu que fosse de fato implementado. Tanto assim que,
poucos meses depois, o Celso Furtado pede demissão
do Ministério do Planejamento para voltar para a
Sudene, onde ele realmente tinha coisas para fazer. Aparentemente,
no Ministério do Planejamento, ele era uma figura
meio decorativa, não lhe deram os instrumentos para
implementar o Plano Trienal. Houve vários outros
ministros, inclusive o Carvalho Pinto depois, o período
foi de enorme instabilidade".
Delfinato
"Depois do golpe, houve um planejamento muito semelhante
nos seus objetivos básicos. Houve mudanças
entre os próprios presidentes, mas, a partir do Costa
e Silva, entrou uma ala mais nacionalista, desenvolvimentista
das Forças Armadas no poder, que se caracteriza pelo
longo delfinato. Delfim Netto dirige a economia brasileira
desde 1967, com o Costa e Silva, até Geisel, ou seja,
até 74. São sete, oito anos em que ele faz
uma política muito centralizadora, muito autoritária,
com o controle de preços, e assim por diante. É
o ‘Milagre Brasileiro’: a inflação
cai, e o Brasil tem um crescimento que hoje corresponde
ao chinês. Na época, seria brasileiro, ou seja,
o Brasil estava crescendo 7%, 8%, 9% ao ano, com uma enorme
expansão, sobretudo, na atividade industrial.
O custo disso foi uma maior desigualdade. Havia total repressão
ao movimento sindical e também camponês. Os
trabalhadores tinham uma posição muito favorável
no mercado de trabalho, porque, se queriam aumento de salário,
não podiam se organizar e fazer greve, mas podiam
mudar de emprego. É o que acontecia. Você mudava
de emprego e, provavelmente, o seu próximo emprego
lhe daria um salário melhor.
Havia uma certa mobilidade entre as empresas, elas corriam
atrás dos trabalhadores, oferecendo salários
melhores. Foi um período de aumento da renda dos
que já estavam em cima, dos trabalhadores qualificados
como o Lula, por exemplo, o Jair Meneghelli. Em compensação
havia milhões e milhões de brasileiros que
ainda estavam no campo e que não se beneficiaram
de nada disso. A franja mais pobre das favelas, das periferias,
os trabalhadores pouco escolarizados ficaram para trás.
O balanço disso, isso eu estudei, é que houve
uma redução acentuada da pobreza absoluta
no Brasil. Não houve Fome Zero. A fome que havia
diminuiu bastante, menos gente passava fome, mas a distância
aumentou".
Cuba
"O significado político e ideológico
de Cuba... é difícil exagerar. Veja, foi uma
revolução de estudantes. O partido comunista
participou muito lateralmente, só no fim da guerra,
um pouquinho antes da vitória. Era muito parecido
com o que era o movimento popular no Brasil, na Argentina
e assim por diante. Fidel Castro, Che Guevara, sobretudo,
eram heróis nossos. A América Latina tinha
sido finalmente capaz de fazer uma revolução
de esquerda consistente que mudou tudo uma única
vez.
O entusiasmo com Cuba era extraordinário e inspirou
inúmeras lutas armadas, não só na Bolívia,
no Peru, na Colômbia, mas no Brasil também.
Antes mesmo do golpe, havia gente, sobretudo, nas ligas
camponesas se armando no sonho de repetir a revolução
cubana no Brasil. Foi uma coisa, no final, muito limitada,
mas eu me lembro que encontrei Francisco Julião,
a grande liderança das Ligas Camponesas. Ele era
deputado, estava aqui em Brasília, nós estávamos
conversando sobre a situação. Isso devia ser
63 para 64, ele me garantiu que levantava 20 mil camponeses
armados na hora em que ele quisesse. Era uma das formas
de dizer que, se havia ameaça de golpe, nós
tínhamos condições de ir em frente".
Fluxo de capitais
"A questão da remessa de lucros na época
(pré-64) tornou-se absolutamente vital. Nós
estávamos inadimplentes, não estávamos
conseguindo pagar as dívidas de curto prazo que o
Juscelino fez. Vale lembrar que o Juscelino foi ao Fundo
Monetário Internacional e, quando viu as condições
que ele teria que cumprir para obter o apoio do fundo, mandou
a delegação ir embora. Ele disse: ‘Isso
eu não faço’. Mas, deixou uma situação
difícil para o seu sucessor. Jânio fez uma
desvalorização e conseguiu, com isso, dar
uma avaliada, mas depois chegou João Goulart, e a
inflação tornou tudo mais difícil,
chegou a 80%, uma coisa assim.
Então, a lei das remessas de lucro era para atender
uma necessidade imediata, tentar conter a hemorragia de
dólares e ver se o Brasil se agüentava. Nós,
na época, importávamos mais de 80% do petróleo
consumido no país. Se tivéssemos ficado realmente
sem conseguir comprar o petróleo, como aconteceu
com Cuba em 1990, teria sido uma tragédia para o
país. Feito o golpe, as portas se abriram e entrou
mais capital no Brasil do que estávamos precisando.
Uma parte do problema era um boicote político ao
Jango, que se transformava em crise cambial. Ela sumiu inteiramente,
o Brasil passou a exportar produtos industriais e a balança
de pagamentos tornou-se não equilibrada, mas artificialmente
equilibrada por enormes empréstimos que nós
tínhamos grande facilidade em tomar.
Nessa época do regime militar, o Delfim, todo fim
de ano, ia aos Estados Unidos fechar a balança de
pagamentos, essa era a expressão que se usava. Ele
trazia ao Brasil os bilhões de dólares necessários
para equilibrar a balança de pagamento. Claro que
a dívida ia crescendo, tanto assim que, em 1982,
na Crise da Dívida, nós temos a maior dívida
externa do mundo naquele momento. Mas, pelos menos até
1980, era muito fácil obter todo o dinheiro necessário
pra equilibrar as contas, em 81, os nossos credores disseram:
‘Não, agora chega. Agora vocês vão
arrumar a casa’. E aí, o Delfim cortou a despesa
pública de uma forma tão selvagem, interrompeu
todas as obras públicas, tudo que estava se fazendo,
que ele provocou a maior crise que nós estivemos
desde os anos 30. Aí foi desemprego em massa, entramos
nas décadas perdidas, começou o período
atual".
Socialismo de Delfim
"Delfim Netto foi meu professor de Estatística
Econômica. Era excelente, uma pessoa extremamente
inteligente e muita culta. O Delfim leu Marx, leu tudo que
há de importante. É um leitor absolutamente
maníaco, acumula livros, e mantinha sempre um grupo
grande estudantes ao se redor. Eu nunca fiz parte diretamente
desse círculo, mas ele me ofereceu para trabalhar
com ele, quando eu me formei. Eu acabei não aceitando,
depois fomos professores juntos, eu muito mais jovem do
que ele, e mais ou menos rivais, ou seja, eu era o professor
da esquerda da faculdade, e ele pela direita.
Houve um episódio interessante, que foi ainda antes
do golpe, em 63, em que se colocou a questão da reforma
universitária. Havia greve geral e a Associação
dos Ex-Alunos, dominada pelo pessoal do Delfim, fez um debate
com os alunos em greve. O que era a reforma universitária,
que universidade queríamos. Eu fui o porta-voz dos
grevistas que lutavam por uma reforma universitária,
e o Delfim do outro lado, polemizamos juntos. Isso não
estragou nossas relações pessoais.
Ele se denominava socialista. Quando nós nos conhecemos,
ele me disse: ‘Não, eu sempre fui socialista,
tentei me aproximar do Partido Socialista, mas não
deu etc.". Ele já trabalhava para os grandes
capitalistas em São Paulo, profissionalmente. De
modo que, até hoje, nós nos damos razoavelmente
bem. A gente conversa, não somos amigos, nem há
chance para isso, mas não somos inimigos também.
Em 1974, eu fui preso, em função do Cebrap
(Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, entidade
fundada em 1969 por professores afastados das universidades
pela ditadura), no momento de rebeldia da linha dura contra
o Geisel. Vários de nós fomos presos, eu fui
preso, junto com Vinícius Caldeira Brant. Fiquei
uma semana preso, eu soube depois que o Delfim interveio
ao meu favor. Naquele momento, ele era embaixador brasileiro
na França. O fato é que disse que eu deveria
ser solto, algo assim. Eu sou grato por isso. Quando eu
saí. Eu mandei um telegrama depois ao Delfim agradecendo,
‘eu soube o que você fez, eu queria lhe dizer
que lhe sou muito grato’".
Resistência intelectual
"Houve um vasto movimento de reação ao
regime militar, com um momento de abertura política,
que foi o regime do Costa e Silva, até o fim de 1968,
até 13 de dezembro, quando eles fizeram o Ato Institucional
número 5. O ano de 1968 foi de forte movimentação
estudantil, mais uma vez pela reforma universitária,
mas, na verdade, era mais um protesto contra a ditadura.
Isso levou depois a uma repressão absoluta. Quando
houve o AI-5, nós todos sabíamos que seríamos
expulsos da universidade. Não havia dúvida.
A universidade era o fulcro da resistência, nós
todos tínhamos participado. Ainda assim, se passaram
vários meses, eu mandei fazer minha contagem de tempo,
sabia que seria aposentado.
E realmente, no dia 30 de abril, saiu a primeira lista,
com Florestan Fernandes, com a primeira nata da universidade,
que foi expulsa. No dia seguinte, estava eu na lista com
os mais jovens, José Arthur Gianotti, Fernando Henrique
Cardoso... Eu estou falando da turma da Universidade de
São Paulo, mas foi no Brasil inteiro, na Bahia, no
Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul. Eles fizeram uma lista
nacional de intelectuais que consideravam subversivos. Nunca
se soube qual foi o critério de escolha. Eu me senti
muito honrado de estar lá, mas vários amigos
achavam que tinham que estar lá também e não
estavam. O que nós menos queríamos é
que eles se solidarizassem publicamente conosco, com medo
de que eles também fossem atingidos.
Nosso esforço, dos que íamos sair da universidade,
era que o máximo das pessoas de valores, democratas,
ficassem na universidade. Nós pedimos, pelo amor
de Deus, nenhuma manifestação publica, nenhum
manifesto, nada, porque, se vocês fizerem isso, amanhã,
vocês estão fora também e é pior
para a universidade. E conseguimos evitar isso. Houve várias
reuniões de professores com vontade de se solidarizar
com a gente. Era totalmente arbitrário, o Fernando
Henrique sim, me lembro que outros não, Fernando
Novaes, que era nosso amigo, não foi aposentado,
Juarez Brandão Lopes, que depois trabalhou conosco
no Cebrap também não foi. Devia ser pelos
acasos dos nossos prontuários policiais, imagino
eu".
Se...
"Se não tivesse havido o golpe?... Eu acho que
nós teríamos hoje uma democracia vamos dizer,
mais consolidada ainda. Ela já está bastante
consolidada, mas ainda é relativamente nova. Nós
temos hoje 15 anos da Constituição democrática
de 88. Nós teríamos provavelmente tido uma
constituição que já estaria em vigor
há quase 60 anos. Teria havido mais continuidade
dos partidos políticos, da vida parlamentar, uma
série de traumas profundos que o país sofreu
teriam sido evitados... Teria sido melhor para o país.
Agora, uma série de importantes avanços que
houve, pela resistência ao regime militar, combinada
com algumas coisas que eles conseguiram fazer no milagre
econômico, não teria havido".
Elo perdido
"Em 1950, quando eu tinha 18 anos, o João Mangabeira,
que eu já citei, era deputado e estava apresentando
um projeto dando liberdade aos sindicatos, contra a unicidade
sindical. Isso foi muito discutido na época no Partido
Socialista, nós todos fomos a favor, mas o Partido
Comunista e a maior parte dos sindicatos foi veementemente
contra, inclusive os sindicalistas do Partido Socialista.
Seria o fim do sindicato, você imagina, acabar com
o imposto sindical... Isso foi um debate que nós
fizemos entre 1950 e 1954. Um dos meus mestres ali foi uma
figura como João da Costa Pimenta, que era o líder
gráfico da greve de 1917. Tinha sido anarquista,
depois fundador do Partido Comunista, e acabou na sua velhice
no Partido Socialista, nos ensinando o que é um sindicalismo
realmente autêntico e independente do Estado. Essa
bandeira foi relevantada pela CUT (Central Única
dos Trabalhadores), nos anos 80. E hoje, está na
reforma que nós estamos fazendo, a chamada reforma
do Fórum Nacional do Trabalho Ela garante a liberdade
sindical. A liberdade sindical, voltando a sonhar com 1950,
vai se realizar provavelmente a partir de 2004".
Refazendo
"Por causa da repressão no regime militar, as
pessoas que entraram no movimento social nos anos 80 têm
a impressão de que o passado é uma coisa muito
obscura. Na verdade, há claras ligações
com aquela época. A CUT é a herdeira de um
pensamento de autonomia, de liberdade sindical, de presença
dos trabalhadores organizados dentro das empresas, é
a tradição do Sindicato dos Metalúrgicos
do ABC. Como essa tradição passa, provavelmente
vai ter que ser pesquisado. Provavelmente é por meio
de pessoas que viveram nesse período e ficaram no
movimento operário. No caso do MST, é sabido
que ele se inspira nas Ligas Camponesas. Há uma figura
interessantíssima que faz o elo, que é o Clodomir
de Moraes, o segundo depois do Francisco Julião.
Ele foi preso na época do golpe e ficou numa cela
com um advogado pernambucano chamado Paulo Freire. Os dois
discutiram muito – porque estavam presos, não
tinham mais o que fazer – sobre como fazer uma educação
emancipatória. Isso deu o MST". |