| Leandro
Fortes/ABr
Punta
Arenas (Chile) - O major-aviador José Madureira Junior,
piloto com quase duas mil horas de vôo dentro de aviões
C-130 “Hércules” da Força Aérea
Brasileira, sobrevoa a Baía do Almirantado há
quatro anos. Ele se orgulha de ter lançado, junto com
outras tripulações da FAB, mil ovos de galinha
na área da Estação Comandante Ferraz,
em 2003. Isso mesmo: mil ovos. Deste milheiro, somente um
_ exatamente, unzinho só _ se quebrou. E não
foi na queda, amortecida por pequenos pára-quedas,
na neve fofa da Península Keller. O ovo se quebrou
na hora em que um marinheiro da Estação foi
recolher a caixa jogada pelo avião do major.
Embora seja
emblemática, a precisão do lançamento
de ovos _ além de outros alimentos e suprimentos de
carga _ sobre a estação brasileira é
apenas um dos pontos da relação estreita entre
o Programa Antártico e a Aeronáutica. Todo ano,
a FAB realiza sete vôos de C-130 para a Antártica.
São viagens longas e nem sempre tranqüilas, sobretudo
por causa do frio e da neve _ um ambiente totalmente diverso
das condições climáticas do Brasil. De
qualquer maneira, os pilotos da FAB são os únicos
que operam durante todo o ano entre os demais dos outros países
signatários do Tratado Antártico. Ao lado do
navio “Ary Rongel”, são os C-130 que garantem
a sobrevivência dos brasileiros instalados por lá.
Major Madureira, faz a rota da Antártica há
quatro anos
Os aviões “Hércules”, com média
de idade de 20 a 40 anos, transportam, além de carga,
pesquisadores, autoridades e convidados ao pólo sul.
O vôo sai do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro,
e segue, primeiro, para Pelotas, no Rio Grande do Sul. No
município gaúcho, os tripulantes e passageiros
recebem roupas especiais para suportar o frio glacial do continente.
A travessia até a base chilena “Eduardo Frei”,
na península antártica, é feita no dia
seguinte. Claro, se o tempo permitir. Os vôos só
são autorizados após a abertura calculada de
uma “janela” meteorológica. Ou seja: quando
as nuvens carregadas da região abrem uma brecha para
o C-130 passar. Uma vez em solo antártico, os passageiros
só chegam à Estação Ferraz de
helicóptero.
A presença
da FAB no continente antártico é mais antiga
que a instalação da estação brasileira.
Um anos antes, em 1983, foi realizado o primeiro vôo
de C-130 para a região. Uma das tarefas era, justamente,
a de encontrar um ponto ideal para a Comandante Ferraz. Desde
então, as tripulações são treinadas
graças a um convênio firmado com a Força
Aérea Chilena.
Os brasileiros
passam uma semana acampados em montanhas da Cordilheira dos
Andes. Lá, aprendem técnicas de sobrevivência
em baixíssimas temperaturas. O treinamento inclui modos
de deslocamento na neve e construção de abrigos
e iglus, como os utilizados por esquimós no Círculo
Polar Ártico. “O iglu não é quente,
mas conserva a temperatura do corpo estável, o que
significa ter uma sobrevida durante uma emergência”,
explica o major Madureira. Na Antártica, é bom
lembrar, não há população humana
nativa. Só animais e plantas.
As missões
aéreas na Antártica, sobretudo as de pouso e
decolagem, são arriscadas. Os ventos podem chegar a
100 quilômetros por hora, e as tempestades de neve ocorrem
sem avisar. Durante o inverno, os pilotos usam um programa
de computador _ rodado em um laptop instalado na cabine _
para calcular os lançamentos das caixas de suprimento
na Estação Comandante Ferraz. É uma manobra
complicada, por conta da geografia local: a estação
fica na entrada de uma baía cercada de morros. O C-130
tem que entrar a baixa velocidade, lançar a carga,
fazer uma curva de 180 graus e retornar para o ponto de origem.
Se o carregamento cair no mar, não há salvação.
A temperatura da água impossibilita qualquer tentativa
de resgate. “Nunca caiu nada no mar”, orgulha-se
Madureira. “Nosso erro máximo, até hoje,
foi jogar a carga a 50 metros do ponto combinado”.
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