Missão Cruls

 

O belga Cruls “era mais brasileiro que muitos brasileiros”,
diz astrônomo

“Seu amor pelo Brasil era tão grande que, em sua viagem à Europa para tratamento da malária, todas as noites permanecia no convés do navio observando o céu. Na noite em que contemplou o Cruzeiro do Sul desaparecer, no horizonte oceânico, ao voltar para a cabine, disse para sua esposa: ‘Tudo acabou’”.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, sobre Luiz Cruls

Rogério Mourão durante entrevista à enviada especial da Agência Brasil.

 

Texto: Luciana Vasconcelos
Fotos: Divulgação Missão Cruls( não disponíveis)

Rio de Janeiro - Um dos participantes do projeto “Missão Cruls - Uma trajetória para o futuro” é o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. O grupo de especialistas e técnicos está desde o dia 10 de novembro na estrada para refazer o trajeto que a Comissão Exploradora do Planalto Central fez em 1892. Sua missão era demarcar o quadrilátero onde seria instalada a nova capital do país. O objetivo é divulgar essa história nas universidades e escolas das cidades por onde passou a expedição.

Mourão é um apaixonado por astronomia, e sua vida mostra a dedicação que teve ao tema. Tanto que é impossível falar de astronomia no Brasil sem mencionar seu nome. Tudo o que se encontra no Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1975 e 1986) de Aurélio Buarque de Holanda sobre astronomia e astronáutica foi elaborado por Mourão. Ele coordenou também os setores de matemática e astronomia da Enciclopédia Mirador Internacional, publicada em 1975 pela Encyclopaedia Britannica do Brasil.

O astrônomo publicou centenas de artigos de pesquisa em revistas internacionais especializadas em Astronomia e tem mais de mil ensaios em livros, revistas e jornais. Já publicou também mais de quarenta livros. É doutor pela Universidade de Paris e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Foi também o criador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro. Ele está, no momento, escrevendo dois livros. Um é a biografia de Luiz Cruls. Em outro, conta a história da astronomia brasileira. Também já levantou elementos para escrever sobre Henrique Morize, fotógrafo da expedição.

Para Mourão, é importante contar a história do astrônomo belga Luiz Cruls, que chefiou a Comissão Exploradora, conhecida como Missão Cruls. Ele elaborou um livreto com notas biográficas do belga. Na publicação, de pouco mais de 60 páginas, Mourão fala da paixão de Cruls pelo Brasil e por seu trabalho. “Luiz Cruls foi um pesquisador e explorador completo: além das pesquisas, sempre se dedicou à divulgação científica dentro do espírito de que devemos continuamente justificar o que fazemos, num respeito à pátria que nos financia. Luiz Cruls, por sua vida, foi mais brasileiro do que muitos brasileiros”, relata.

Cruls veio para o Brasil em 1874 a passeio e, no caminho, conheceu Joaquim Nabuco, que o apresentou ao imperador D.Pedro II. Naturalizou-se brasileiro e “aportuguesou” o nome, que originalmente era Louis Ferdinand Cruls. Em 1976, foi admitido como astrônomo-adjunto, no Observatório Imperial do Rio de Janeiro, hoje o Museu de Astronomia. Em 1881, foi promovido a primeiro astrônomo e, três anos depois, tornou-se diretor do órgão. Além da demarcação do quadrilátero central, Cruls chefiou outras importantes expedições, como a Comissão Limites, entre o Brasil e a Bolívia, em 1901, para demarcar as nascentes do rio Javari. Também chefiou a Comissão Punta Arenas, em 1882, responsável, junto com outros países, por observar a passagem de Vênus pelo disco solar.

Mourão conta que a última missão de Cruls foi na região amazônica: demarcar as nascentes do Rio Javari. O “obstinado”, segundo Mourão, fez boa parte do trajeto em maca, pois, tendo caído vítima de malária, estava debilitado.

Durante entrevista, o astrônomo fala sobre a vida de Cruls e a importância dele para a história científica e social brasileira. Fala também sobre impressões que está tendo durante a nova expedição e das saudades que sente das linhas de trem no Brasil.

Agência Brasil - Qual é a importância de Cruls para a astronomia?

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão - Ele representou muito para a história científica brasileira. Cruls deu estabilidade ao Observatório Nacional, lutou sempre para manter um nível alto de pesquisa. Sempre defendeu a instituição, que foi ameaçada de ser fechada. Ele abriu a pesquisa de astrofísica no Brasil, que até então era mais voltada para astrometria.

Foi uma pessoa que se preocupou em divulgar seus conhecimentos. Ele escrevia para os jornais. Publicou um Atlas Celeste, que é o primeiro do Brasil com o objetivo de divulgar a astronomia. Criou a Revista do Observatório, que é a primeira revista científica fundada no Brasil. Pode parecer para as pessoas atuais uma revista de divulgação, mas no fundo não é. É uma revista com aspecto científico, de informação, e que tem trabalhos importantes sobre astronomia e problemas correlatos.

ABr - E para a história brasileira?

Mourão - Ele teve uma importância muito grande na história social deste país, ao ter assumido uma posição na pesquisa: ele criou o primeiro Rima (Relatório de Impacto no Meio Ambiente), nas duas comissões pelas quais ele foi o principal responsável, a Comissão Exploradora, em 1892, e a Exploração de Estudo da Nova Capital.

Era uma pessoa que se preocupava não só com astronomia, mas com o Brasil como um todo. O território todo deveria ser alcançado pela interiorização do País. Ele preocupou-se muito com esse problema de ferrovias e hidrovias. Sob esse aspecto, teve uma grande importância no problema político brasileiro, o que vai repercutir mais tarde na criação de Brasília, com Juscelino Kubitschek. Não há dúvida de que, se não houvesse o trabalho de Luiz Cruls, JK talvez não tivesse escolhido tão bem a capital do Brasil.

ABr - O senhor disse que ele era muito mais brasileiro que muitos ...

Mourão - Não há dúvida. Ele é muito mais brasileiro do que muitos brasileiros. Ele não tinha dúvida, principalmente, na questão acreana. Ele foi de maca, ele estava doente, não tinha condições de continuar o trabalho, mas insistia. Achava o seguinte: ou ele terminava, ou a única solução seria morrer, se não pudesse terminar. Tinha a obrigação acima de tudo.

ABr - O sr. escreve atualmente a biografia de Cruls.

Mourão - Esse trabalho do Cruls começou nos anos 70, quando tive contato com um dos netos dele, que até me apresentou a filha mais jovem, a Stella. Depois as coisas são lentas, você tem que parar um pouco para conseguir dados mais recentes. Por exemplo, nesta minha viagem da Missão Cruls, eu já tive contatos, e algumas coisas novas eu acrescentarei à vida do Luiz Cruls.

ABr - Qual é a impressão refazer o percurso que Cruls explorou há mais de 100 anos?

Mourão - À medida que você começa a pesquisar a memória do Brasil, você tem momentos de revolta, porque vê, por exemplo, como eu vi na cidade de Uberaba, uma estação belíssima do início do século passado que foi totalmente descaracterizada. Eu acho que o Patrimônio Nacional devia se preocupar com isso. Acho que aquilo ali devia ser restaurado, porque realmente é uma beleza e é talvez uma das poucas que nós tenhamos ainda no Brasil. Aliás, lamento também que as estradas de ferro tenham sido desativadas. Elas deviam estar funcionando como acontece na Europa ou nos Estados Unidos até hoje, onde você ainda pode viajar de trem com todo conforto.

 
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