| Luciana
Vasconcellos/ABr
Brasília,
Na tarde de 19 de setembro do ano passado, o então
candidato à Presidência da República
Luiz Inácio Lula da Silva foi surpreendido no auditório
do comitê central de sua campanha, em São Paulo.
Um grupo de crianças, filhas dos funcionários
do comitê e assessores, invadiu o espaço para
cumprimentar o petista com beijos, abraços e muita
festa pela assinatura de um termo de compromisso que diz
respeito diretamente aos quase 70 milhões de brasileiros
que têm até 19 anos. Lula assumiu naquele momento
que, eleito, poderia ser chamado de “Presidente Amigo
da Criança”.
Agora,
o ministro Nilmário Miranda, da Secretaria Especial
de Direitos Humanos, adianta que Lula está prestes
a lançar um conjunto de programas que vai afetar
diretamente esse público. O Plano de Ação
pela Criança e o Adolescente reúne programas
de todos os ministérios da área social e deve
ser lançado ainda este mês, em comemoração
ao Dia da Criança, com a participação
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo
Miranda.
Acabar
com a violência sexual contra crianças e adolescentes
é uma das grandes metas do governo previstas no Plano,
que prevê ainda o combate ao avanço de doenças
sexualmente transmissíveis, como a Aids. Outra meta
é garantir a crianças e adolescentes uma vida
saudável, com redução da mortalidade
infantil e investimento em programas de saneamento básico.
Por fim, o plano procura promover educação
de qualidade, com ênfase na pré-escola e educação
básica para todos.
A
exemplo do que vem promovendo em programas como o Fome Zero
e o Brasil Alfabetizado, o governo também aposta
em parcerias para incrementar o plano de ação.
A Petrobras, por exemplo, já anunciou que vai doar
R$ 10 milhões ao Fundo Nacional da Criança
e do Adolescente. Esse dinheiro será utilizado para
fortalecer a criação de conselhos tutelares,
capacitação profissional de adolescentes,
fortalecimento das redes de identificação
de crianças desaparecidas e apoio ao Programa de
Proteção aos Adolescentes ameaçados
de morte.
Os
ministérios da Saúde e das Cidades também
prometem investir em programas de saneamento básico.
A falta de tratamento de água e esgoto é uma
das causas da diarréia, que segundo o Unicef, Fundo
das Nações Unidas para a Infância, é
responsável por mais da metade das mortes de crianças
com menos de um ano no Brasil.
Nilmário
Miranda explica como aconteceu a elaboração
do plano: “O presidente encarregou a mim de coordenar
os ministérios para transformar seus compromissos
em um plano de ação. O ministério,
em conjunto, assumiu a responsabilidade por quatro grandes
metas, previstas no Orçamento mandado para o Congresso
Nacional, bem como no Plano Plurianual. O Conselho Nacional
dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda)
também aprovou os objetivos estabelecidos pelo plano".
São
eles: 1) vida saudável: reduzir a meta da mortalidade
infantil ate 22 por 1000 e diminuir em 25 % a mortalidade
materna; 2) educação de qualidade: universalização
da educação básica e fundamental, incluindo
a capacitação dos servidores do ensino, atenção
médica, saúde bucal, qualidade da merenda,
atividades extracurriculares, e ainda diminuir a evasão
no ensino médio; 3) combater o avanço das
doenças sexualmente transmissíveis; 4) compromisso
em relação ao abuso e a violência sexual,
incluindo o combate à exploração para
fins comerciais de crianças e adolescentes.
Violência
e desaparecidos
A
cada hora, sete crianças ou adolescentes sofrem algum
tipo de abuso sexual no Brasil. Em 60% dos casos denunciados,
a violência ocorreu dentro de casa e, em 71%, o abusador
é uma pessoa conhecida da criança ou do adolescente,
como o pai, o padrasto ou o tio. Os dados são da
Associação Brasileira de Proteção
à Infância e Adolescência.
Acabar
com a violência sexual contra crianças e adolescentes
é uma das metas do governo previstas no plano. Para
reforçar as ações de combate a esses
crimes, o governo deve lançar até o final
do ano um disque-direitos humanos, com apenas três
algarismos, para facilitar a denúncia.
Outra
das ações articuladas com o plano a ser lançado
pelo governo federal diz respeito a um problema que já
foi tema de novela, o desaparecimento de crianças.
Segundo Alexandre Reis, coordenador da Rede Nacional de
Identificação e Localização
de Crianças e Adolescentes, da Secretaria Especial
dos Direitos Humanos, a maioria das crianças desaparecidas
retorna para casa nos primeiros dias. Elas fogem de maus-tratos
e conflitos familiares. “Não temos um número
consolidado de crianças e adolescentes desaparecidos
no Brasil anualmente. Temos uma estimativa baseada no número
de ocorrências policiais de desaparecimento, então
pode ser que cheguemos a 20 mil crianças. Desse total,
cerca de 80% retornam rapidamente para casa”, afirma
Reis.
Além
da fuga do lar, há casos de meninas que fogem com
o namorado e um número menor que envolve conflitos
de guarda, pais que estão se separando. Mas, há
também casos de natureza mais grave, como seqüestros,
desaparecimentos temporários por desorientação
ou descuido e inclusive vítimas de extermínio
e sacrifícios humanos. “Cerca de 25% dos desaparecimentos
são de crianças com menos de 12 anos, e 75%
são de adolescentes. No caso dos adolescentes, a
incidência maior é em torno de 12 e 13 anos,
no sexo masculino e em torno de 15 a 16 anos, no caso feminino”,
explica Reis.
A
Rede Nacional de Identificação e Localização
de Crianças e Adolescentes funciona na internet desde
dezembro de 2002. Ela tem atualmente 311 casos cadastrados.
Só este ano, já foram localizadas por seu
intermédio 75 crianças. A rede é articulada
por delegacias especializadas e organizações
não-governamentais.
Para
operar o sistema de forma eficaz, ainda é preciso
fazer muito. Em alguns estados, as delegacias não
têm acesso à rede, às vezes nem sequer
a um computador. Falta também, segundo Alexandre,
capacitação da polícia para investigar
os casos. “Hoje temos uma articulação
que envolve 34 organizações, a maioria são
delegacias de proteção a criança e
ao adolescente que cobrem todo o território nacional.
Um dos objetivos é a criação de um
cadastro nacional de casos, que não existe”,
completa o coordenador da rede, hoje alimentada por dados
de 19 estados.
Apesar
das dificuldades, já se podem observar alguns avanços.
Reis contou que foi fechada uma parceria com 250 listas
telefônicas para divulgar o retrato de crianças
desaparecidas e a existência da rede, alcançando
potencialmente 28 milhões de pessoas. Além
disso, a criança que sumir será cadastrada
pela Polícia Federal, para evitar que saia do país.
Para os próximos passos no desenvolvimento do sistema,
Reis planeja a inclusão de técnicas sofisticadas,
como softwares que permitem o “envelhecimento digital”,
um recurso de computador que traça retratos virtuais
de uma pessoa desaparecida, possibilitando visualizar um
rosto após anos de envelhecimento e retomar investigações
antigas.
Procurar
a polícia e organizações que trabalham
com crianças desaparecidas, estar atento às
notícias e nunca desistir. Esse é o conselho
de Lia Tapajós, que teve seu filho Pedrinho seqüestrado
horas depois do parto. Dezessete anos mais tarde, Lia reencontrou
seu menino. "Jamais perca a esperança, eu acho
que ela foi só o que nos sustentou", aconselha
ela. O site da rede nacional de identificação
é www2.mj.gov.br/desaparecidos .
HIV:
epidemia teen
Quase
metade da população mundial tem menos de 25
anos, de acordo com o relatório Situação
da População Mundial 2003, divulgado nesta
quarta-feira (8) pelo Fundo de População das
Nações Unidas (UNFPA). O mundo tem hoje mais
de 1,2 bilhão de adolescentes, com idade entre 10
e 19 anos. Destes, 87% vivem em países em desenvolvimento.
Segundo o estudo, metade dos novos casos de infecção
pelo vírus HIV atinge pessoas entre 15 e 24 anos.
Todos os dias, seis mil são contaminados no mundo,
na média de uma infecção a cada 14
segundos.
No
Brasil, houve um aumento expressivo do número de
jovens entre 13 e 19 anos com Aids. E a situação
é mais grave entre as adolescentes. De 2000 a 2002,
foram notificados 531 novos casos da doença entre
meninas e 372 entre os meninos. A informação
é de Denise Doneda, representante da unidade de prevenção
de saúde do programa DST/ Aids do Ministério
da Saúde.
O
combate a doenças sexualmente transmissíveis
é outra das metas do Plano de Ação
pela Criança e o Adolescente. Para os jovens terem
informações corretas, poderem se prevenir
contra doenças e até mesmo uma gravidez indesejada,
o governo implantou um projeto piloto em cinco municípios,
onde os adolescentes têm acesso gratuito a camisinhas.
As primeiras cidades beneficiadas são Rio Branco
e Xapuri (AC), São José do Rio Preto (SP),
São Paulo e Curitiba. O programa é uma parceria
entre os ministérios da Educação e
da Saúde.
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