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Lana Cristina/ABr
Brasília
- A tecnologia que permite identificar as chamadas telefônicas
dos mais de 1 bilhão de usuários de celulares,no
mundo inteiro, foi inventada por um brasileiro autodidata
que não ganhou um tostão pela sua revolucionária
invenção. Nélio José Nicolai,
63, criou o BINA há mais de 20 anos. Técnico
da antiga Telebrasília, estatal privatizada, ele
ouviu de seus chefes que a técnica desenvolvida por
ele não teria utilidade de mercado.
Que falta de visão!
Hoje, vendem-se aparelhos de BINA para telefones fixos em
todo o mundo e absolutamente todos os aparelhos de telefonia
móvel trazem a tecnologia embutida e disponível
aos seus usuários. O assinante paga uma taxa mensal
pelo serviço, o que rende alguns milhares de dólares
para as empresas do setor. "Se as empresas de telefonia
móvel brasileiras repassassem para mim R$ 1 de royalties,
relativo a cada cliente que usa o BINA no Brasil, eu receberia
R$ 40 milhões todo mês. Só o imposto
que eu teria de pagar sobre este valor seria um benefício
para o País”, imagina o inventor.
Nicolai não
recebe nem um tostão pela sua invenção
simplesmente porque até hoje ninguém o reconhece
como o inventor, ainda que ele detenha a patente da tecnologia
registrada não só no Brasil, no Instituto
Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), como em outros
38 países.
Disputa
de “paternidade”
Há quem conteste
a originalidade de seu invento, reclamando para si a autoria
da invenção. A norte-americana Carolyn Doughty,
dos Laboratórios Bell, que pertence à Lucent
Technologies atualmente, é uma das que supostamente
teria tido a idéia antes de Nicolai. Inventora do
"caller ID", ou identificador de chamadas, Doughty
pediu o registro da patente de seu invento em 1983, um ano
depois que o produto havia sido lançado comercialmente
no Brasil.
O inventor brasileiro
teve a idéia de desenvolver o BINA em 1977 e a primeira
carta-patente do invento é de 1981. Antes mesmo que
expirasse, depois do período previsto em lei, que
é de 15 anos, ele pediu novo registro em 1992. A
segunda carta-patente foi adquirida em 2001 e, segundo explica
Nicolai, foram feitas algumas adaptações que
tornaram a tecnologia mais simples.
Nicolai conta que
o japonês Kazuo Hashimoto é outro que se considera
pai do identificador de chamadas. Hashimoto alega que a
primeira patente de seu invento, no Japão, é
de 1976. Suas patentes americanas, no entanto, são
de 1980 e 1985, emitidas depois das patentes americanas
de Nicolai. Além disso, segundo o brasileiro, Hashimoto
não inventou propriamente um identificador de chamadas.
"É um aparelho como se fosse uma TV que recebe
um sinal quando alguém envia. É incompleta
a tecnologia. O que eu fiz foi diferente. Achei um jeito
de acessar o número que fica registrado na central
quando uma ligação é feita e levá-lo
até um receptor", ensina.
Dificuldades
de se obter patentes
Nicolai reclama
que as maiores adversidades quanto ao reconhecimento de
que o BINA é uma invenção sua ele tem
enfrentado aqui, dentro de seu próprio país.
Conta que nem o ministério das Comunicações
se pronunciou a respeito quando estimulado por ele.
O inventor pediu
que o ministério atestasse a invenção
como sua e, conforme conta, “o ministério pediu
um parecer técnico da Anatel (Agência Nacional
de Telecomunicações) que, por sua vez, respondeu
que não é de sua competência emitir
tal parecer. O papel da agência, segundo eles, é
restrito à homologação de produtos
na área em que atua”
Nicolai não
entende como a Anatel tem competência técnica
para homologar um produto como o próprio BINA, dando
um atestado de que o produto atende às exigências
técnicas, e não tem competência para
emitir um parecer sobre a autoria da invenção,
que já foi patenteada.
Nicolai se ressente
da falta de estímulo ao registro da propriedade de
uma idéia e do quanto isso pode render também
ao governo, na forma de impostos e pela própria movimentação
do mercado interno e externo. "Se as universidades
patenteassem mais, esse dinheiro voltaria na forma de mais
recursos para financiar pesquisas", conclui.
Dados do presidente
do INPI, apresentados em seminário, em 2001, corroboram
a insatisfação do inventor brasileiro. De
1988 a 1996, as universidades brasileiras obtiveram 28 patentes,
dentre as 12 mil solicitadas anualmente.
Nos Estados Unidos,
o número de patentes acadêmicas obtidas entre
1995 e 1999 foi de 9.178. "Há omissão
do ministério do Desenvolvimento, da Indústria
e do Comércio Exterior que não reivindica
os royalties de uma tecnologia que é brasileira.
Há omissão do ministério da Ciência
e da Tecnologia por não investir no inventor e ainda
cobrar do pesquisador que publique como retorno do financiamento
e não que registre patente. Tem pesquisador que nem
sabe dos trâmites para fazer pedido de patente",
lamenta.
Apesar de tudo,
Nicolai acha que tem o que comemorar no dia do inventor:
"afinal eu poderia ter inventado mil coisas e nenhuma
delas estar sendo usada. Mas um invento meu é usado
por mais de 1 bilhão de pessoas no planeta, o que
prova que eu estava certo", celebra.
Processos
judiciais
Os brasileiros apoderaram-se
do nome BINA como identificador de chamadas, desde que o
primeiro aparelho surgiu no mercado e mesmo sem saber que
um brasileiro era o inventor da tecnologia. Passados 20
anos, o que se vê hoje no mercado são aparelhos
de identificação de chamadas. É tudo
a mesma tecnologia. No caso da invenção de
Nicolai, a sigla é o nome de batismo que ele deu
ao invento, que significa "B identifica número
de A". Já o uso do nome "identificador
de chamadas", na interpretação do inventor,
é um artifício usado pelas empresas para não
pagarem royalties por venderem uma tecnologia cuja autoria
preferem ignorar. A própria Anatel, queixa-se Nicolai,
passou a usar o termo ultimamente em seus laudos.
Nicolai decidiu,
em 1998, entrar com processo judicial contra as operadoras
de telefonia celular. Ele escolheu, então, só
a Americel, que opera em Brasília e agora chama-se
Claro, para não ser questionado quanto à jurisdição.
O inventor teve sua primeira vitória na ação,
que corre no Tribunal de Justiça do Distrito Federal
(TJDF), ao ganhar em primeira instância em julho de
2002. Com esse resultado, Nicolai decidiu então acionar
as outras 47 operadoras de celular existentes.
Em setembro, veio
a vitória também em segunda instância.
"Só falta o acórdão confirmando
a decisão final", comemora. A Claro pode ainda
contestar a decisão ou pedir que o processo seja
encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ),
segundo o inventor. Mas ele disse que está determinado
a ir até o fim. "Estou brigando sozinho contra
as empresas, contra a Anatel. Só recentemente entrei
com ação na justiça porque, afinal,
tudo isso tem um custo e o dinheiro sai do meu bolso. Por
isso mesmo nunca movi nenhuma ação no exterior,
mas vontade não me faltou", conta.
Outros inventos
Nicolai tem várias
outras patentes e conta histórias de idéias
que teve e repassou para grupos bancários ou de telefonia
que também não lhe rendem nada em direitos
autorais. Ele começou a patentear suas idéias
em 1979, muito antes do próprio registro do BINA.
A tecnologia chamada por ele de Multilinha, por exemplo,
é dessa época. Ele conseguiu que uma mesma
linha de telefone pudesse ser usada por 10 assinantes. As
linhas falavam entre si e, quando um dos usuários
recebia uma ligação e outro precisava usar
o telefone, o primeiro recebia um sinal. Em três minutos,
a ligação caía caso o usuário
desprezasse o aviso, para dar direito ao segundo usuário
a fazer sua chamada. Para que os assinantes recebessem a
ligação diretamente no seu aparelho, bastava
que o emissor da ligação acrescentasse o respectivo
número da sub-linha (de 1 a 10) ao final do número
original.
Alguma semelhança
com algum sistema adotado hoje em dia? Não é
coincidência. Esse é o micro PABX, pequena
central de ramais telefônicos explorada comercialmente
por grandes empresas de telefonia como a Ericsson, a Nec
e a Intelbrás.
Nicolai relata que,
na época em que apresentou o projeto à Telebrás,
argumentaram que o produto não era muito bom, ainda
que tenham abraçado o projeto e criado um programa
chamado Zé Carioca, para repassar aos assinantes
o serviço. Mas ele não vingou na época.
"E ainda repassaram a idéia para as grandes
empresas. Isso é mesmo um absurdo", reclama.
Nicolai também
criou um sistema pelo qual uma linha telefônica só
possa receber e não originar chamadas (sem registro
de patente); inventou uma máquina de escrever acoplada
a um aparelho de telefone que registra as informações
datilografadas numa espécie de memória e envia
para outra máquina com as mesmas características,
tal como um fax, mas sem a necessidade de imprimir o documento;
e um sistema de proteção bancário que
permite que o correntista seja avisado, pelo telefone celular,
sobre qualquer movimentação financeira que
haja em sua conta (Nicolai conta que apresentou a idéia
ao Unibanco em 2002 e, hoje, o serviço está
disponível para seus correntistas).
No dia do inventor,
Nicolai gostaria ainda que o governo brasileiro reconhecesse
o talento dos milhares de brasileiros que têm idéias
que se transformam em dinheiro. "Inventor não
é despesa para o país, é receita. É
preciso que o governo se conscientize disso e para de se
preocupar só com o pagamento de dívidas. Quando
alguém inventa algo, gera empregos, porque a próxima
etapa é a do desenvolvimento (os caras que vão
gerar os protótipos, para ver como aquela idéia
melhor se aplica), depois vem a etapa da execução
que é das empresas", enumera.
Ele cita, entre
tantos brasileiros que trabalham com criatividade, mesmo
num ambiente adverso de falta de recursos e meios de trabalho,
o inventor Nelson Guilherme Bardini. Há 135 inventos
no nome de Bardini, mas um em especial passa pela mão
de milhões de brasileiros todos os dias, fazendo
com que se comuniquem sem o ônus de carregar peso
na bolsa e ainda sem correr o risco de perder dinheiro.
É o cartão telefônico, que Bardini inventou
quando era funcionário do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento
(CPqD), da extinta Telebrás. "Até as
máquinas que fabricam o cartão são
invenção dele", conta Nicolai.
Bardini acabou repassando
a tecnologia para a empresa em que trabalhava e nunca recebeu
nada em direitos autorais. Recentemente, a operadora de
telefonia Telemar o homenageou numa série de cartões,
com número limitado, estampando sua foto e, registrando
no verso, o reconhecimento de que ele havia criado a tecnologia
que hoje permite aos brasileiros a ter direito a uma chamada
telefônica rápida, direto de um telefone público.
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