top_integras.gif (17325 bytes)
  

Entrevista coletiva concedida pelo primeiro-ministro da Irlanda, Bertie Ahern

 

Ministro Ligiero: ...depois estará pronto para responder às suas perguntas. Por favor, Sr. Primeiro Ministro.

Sr. Bertie Ahern: Muito obrigado. Ao longo do dia de hoje, conforme saberão, tivemos oportunidade, eu e meus colegas que me acompanham nessa delegação, de nos reunirmos por mais de uma hora com o Presidente e membros do seu quadro de pessoal. A reunião essencialmente enfatizou o nosso desejo mútuo de consolidar e ampliar nossas relações bilaterais e discutirmos também questões econômicas e as possibilidades de ampliação de nosso comércio e cooperação.

Também tivemos oportunidade de informar ao Sr. Presidente de nossa intenção de posteriormente, no decorrer do ano em curso, de abrirmos em Brasília uma Embaixada Irlandesa juntamente com a abertura de um Consulado na cidade de São Paulo, em breve. Isso permitirá centrarmos mais atenção nas possilibilidades de expansão de nossas relações e também tenho comigo o Sr. Flinton, da Interprise Ireland que me acompanha com vistas a estudar as possibilidades de ampliar os vínculos comerciais e de outra natureza entre Irlanda e Brasil.

Ficamos muito agradecidos ao Sr. Presidente pelo tempo que ele nos concedeu, não só na reunião hoje pela manhã, mas também durante o almoço de hoje. Nessa oportunidade conversamos sobre questões relativas à União Européia, como as próximas rodadas da OMC poderão evoluir no futuro e também sobre as perspectivas de relacionamento entre o Mercosul e a União Européia no futuro, bem como sobre de que maneira poderemos desenvolver nossas relações daqui para diante. Falamos sobre questões regionais, tais como economia brasileira, sua expansão significativa e os programas que o Presidente vem encabeçando e também pude oferecer ao Presidente uma explicação sobre como tem sido o desempenho da economia irlandesa ao longo dos últimos 100 anos.

Evidente as relações e oportunidades que se apresentam entre Mercosul e União Européia são questões muito importantes. Gostaria de frisar a atenção da imprensa aqui em Brasília, brevemente, que a Irlanda sendo um país pequeno já é membro da União Européia por cerca quase de 30 anos. Nosso crescimento econômico tem sido de 8,5% ao longo dos últimos 5 anos. A Irlanda também tem tido uma taxa de crescimento bastante significativa, um crescimento econômico de mais de 10% nos últimos 20 anos e além disso somos o terceiro maior país exportador no momento. Exportamos significativamente bens de tecnologia da informação. Repito, os números são 10% per capita. Três por cento per capita, correto? (...) Recuperando essa informação, o nº é efetivamente, conforme informado, 8,5% de crescimento econômico ao longo dos 5 últimos anos, conforme informado, taxa de crescimento de 10% no último ano de 2000 e retificando uma taxa de crescimento per capita, que foi a 3ª maior do mundo, no último ano. A Irlanda se apresenta como o maior exportador de produtos de informática, superando já por mais de 2 anos os Estados Unidos, com exportações no valor de até 70 bilhões, ou seja, o número de nossa população não dá uma dimensão exata do potencial de exportação que o país tem. Logo, é lógico e natural que a Irlanda esteja atualmente procurando novos mercados para os quais exportar, mercados não tradicionalmente explorados no passado.

Ministro Ligiero: Vamos passar então às perguntas.

Pergunta: Eu gostaria de saber que tipo de comércio pode ser melhorado e a opinião da Irlanda sobre (...) na União Européia.

Sr. Bertie Ahern: Com relação ao comércio, aos clubes comerciais, a maioria das exportações da Irlanda se concentram na área mais ampla da da informática, da tecnologia da informação. Na verdade a sigla TI (Tecnologia da Informação), passou a ser um nome muito facilmente aplicado para se referir a muitas coisas. Basicamente tudo, desde os produtos mais essenciais até qualquer outro ramo ou sub-ramo de negócios na Internet. Outra área também importante nas nossas exportações são substâncias químicas e produtos farmacêuticos. Tenho comigo uma lista decorrente de uma análise realizada, uma lista que na verdade é uma relação pormenorizada desses itens e se houver interesse entre alguns dos presentes posso disponibilizar ou mostrar essa lista detalhada desses pontos da pauta de exportação irlandesa. Com relação à segunda pergunta, subsídios agrícolas, estamos muito cientes da visão brasileira acerca desse particular e entendemos que não deveríamos nos antecipar às discussões da próxima rodada comercial a se realizar em novembro. Entendemos também que o Brasil deseja ter um progresso mais efetivo nesse particular. Acreditamos que as discussões atualmente em andamento pelos canais em Genebra poderão se provar bastante bem sucedidas e entendemos que não deveríamos nos antecipar a ponto de impedir o seu pleno desdobramento. Essas discussões nesse âmbito de Genebra da OMC são muitíssimos importantes. As sessões de trabalho realizadas em Seattle já mostraram ser um ponto de guinada, até certo ponto. E pelo que ouvi do Presidente, hoje, ele deixou claro que o nível de subsídios concedidos à agricultura na União Européia, bem como os níveis de subsídios concedidos pelos Estados Unidos representam sérias dificuldades ao Brasil. A Irlanda nesse particular também vê na política agrícola ou agropecuária uma importante questão. Na verdade as decisões alcançadas no âmbito do acordo europeu realizado em Berlim, em março de 1992, são muito importantes para o nosso país. Nesse particular, portanto, não tememos as rodadas comerciais da OMC, na verdade entendemos que não deveríamos antecipadamente concluir nenhuma postura com relação a essas questões. Acreditamos igualmente que seria errado incluir as questões de subsídios agrícolas desde já ou antecipadamente à rodada de negociações em andamento. A Irlanda vê no Foro de Genebra um importante foro de negociação e evolução dessas questões conforme atualmente em andamento.

Pergunta: Qual o cronograma previsto para a abertura da Embaixada e do Consulado no Brasil?

Sr. Bertie Ahern: Entendemos ser possível já com base no trabalho preliminar realizado antecipadamente que será possível de abrir ou estabelecer as representações diplomáticas e Embaixada no Brasil, antes do fim desse ano.

Pergunta inaudível

Sr. Bertie Ahern: Nossa análise aponta precisamente as (...) de dificuldade, dificuldade que entendemos ser conjunturais. É verdade também que é preciso reconhecer que houve dificuldades no passado, porém hoje elas estão plenamente superadas e percebemos o Mercosul, e nos voltamos para o Mercosul e dentro do Mercosul para o Brasil em particular como uma área, ou como países do mundo que dispõem de enormes recursos naturais, possuem um mercado bastante bem consolidado e bem sucedido, portanto se apresentam como uma importante região do mundo. Os últimos anos mostraram uma mudança no fluxo de investimento da Irlanda, por exemplo da França, Espanha, Portugal e Estados Unidos, de modo que hoje temos um equilíbrio mais diversificado no fluxo de investimento estrangeiro direto por parte da Irlanda. Na verdade também não há muitas empresas que operam aqui no Brasil de origem Irlandesa, porém temos algumas empresas das quais um exemplo bastante prestigioso é a empresa Carefoods, que trabalha na área de gêneros alimentícios, ingredientes alimentícios desde 1999. Naquele ano registrou um volume comercial de 8 milhões, volume que tem crescido desde então e portanto já dispõe de uma sólida base ou parque de produção nesse país e embora reconheçamos as dificuldades conjunturais do curto prazo, sabemos que em termos de mercados estratégicos, tanto para agora quanto para o futuro essa região se apresenta como uma área importante. Desejamos o melhor a esses países na superação de seus problemas conjunturais, mas isso não afeta de nenhum modo a nossa percepção do valor desses mercados como o destino de investimento.

Pergunta inaudível

Sr. Bertie Ahern: Com relação à primeira parte da sua pergunta, vale ressaltar que a Irlanda não retificou o Tratado ou o Referendo de Nice. Eu não acredito e já afirmei quando em Gotemburgo que seja o que o acordo/referendo de Nice espelhe a visão irlandesa acerca da expansão da União Européia, inclusive à luz dos dados da última pesquisa de opinião realizada sabe-se que o povo irlandês provavelmente é mais propenso a uma política de expansão ou de alargamento da União Européia do que a maioria do que os demais povos do continente e há uma série de outras questões que também terão de ser tratadas no âmbito do referendo. São questões com as quais teremos de lidar, mas vale uma vez mais enfatizar que eu em particular apoio enfaticamente o processo de ampliação da União Européia, acredito que ele ocorrerá com efeito. Com relação à segunda parte de sua pergunta, evidentemente há problemas ou dificuldades significativas nas relações ou nas perspectivas de relações entre Mercosul e União Européia, questões essas que deverão ser plenamente superadas. Acredito no entanto que é preciso olhar para a realidade, reconhecer que o mundo vem se fragmentando em blocos regionais como NAFTA, Japão, União Européia, Mercosul e evidentemente tudo isso traz à tona um processo de negociações por vezes muito difíceis. No entanto entendemos que tem sido bastante válido o progresso e a evolução alcançada desde a reunião de 1999 e também o progresso registrado nessa capital, quando da Cúpula dos Presidentes ou dos países latino-americanos no ano passado bem como o progresso a ser alcançado na Reunião de Madrid no mês de maio. Acredito não haver qualquer dúvida de que o progresso de fato será alcançado nessa área e uma das evidências específicas é o número de visitas a este continente de representantes estrangeiros, por exemplo, o Sr. Jospin esteve no Brasil há poucas semanas, o Tony Blair, 1º Ministro da Grã Bretanha, estará também aqui dentro de uma semana ou mais, o Chanceler da Alemanha, Sr. "Sholder", estará também visitando o Brasil no próximo mês de setembro, de modo que acredito que as relações entre o Mercosul e a União Européia tem expandido e isso tem ocorrido num ambiente de corroboração e respaldo mútuo. A perspectiva é que essas relações expandam ainda mais e a percepção é muito positiva em ambos os lados.

Ministro Ligiero: A última pergunta, por favor.

Pergunta inaudível

Sr. Bertie Ahern: Vários produtos exportados para o Brasil são produtos farmacêuticos. Quero saber a opinião do sr. a respeito da quebra de patentes de medicamentos, que tem sido praticada pelo Brasil, medicamentos esses que beneficiam as camadas mais pobres.

Sr. Bertie Ahern: Na verdade eu apresentei ao Sr. Presidente do Brasil meus parabéns pelas importantes conquistas alcançadas nesse particular no Brasil. Eu também em nome da União Européia compareci à conferência das Nações Unidas realizadas no último mês sobre HIV e AIDS e esse tema da AIDS é de particular interesse para mim, sobretudo a questão da AIDS conforme documentada na África, sobretudo porque a Irlanda tem missões religiosas naquele continente e há também importantes organizações não governamentais atuando no continente africano e informei ao Presidente também que vemos com muito bons olhos o grande êxito alcançado no Brasil nessa árdua tarefa de quebrar a patente ou os direitos de propriedade intelectual na área de produtos farmacêuticos. Na verdade vale dizer que do contrário na ausência de uma quebra de patente não seria possível não só no Brasil, mas isso também serviria de exemplo para o resto do mundo, não seria possível aos países superar ou de algum modo causar algum impacto para resolver o problema do HIV e da AIDS. Na verdade, toda uma geração seria perdida e também vale lembrar que possivelmente toda uma geração será perdida inevitavelmente com a envergadura da epidemia. No entanto, sem um quebra da lei de patentes, do regime de patentes nenhum impacto seria possível. O Presidente ele mesmo informou-me que apesar do êxito na mudança do regime de patentes que se aplica aos produtos farmacêuticos, mesmo apesar desse êxito os custos incorridos pelo sistema sanitário do Brasil nesse particular ainda são altíssimos e sem quebra de regime de patentes não teria havido qualquer progresso nessa área específica. O Brasil teve muito êxito nisso, muito provavelmente mais êxito do que qualquer outro país do mundo. A Irlanda portanto respalda essa conquista, essa realização brasileira e na verdade nós já estamos procedendo a discussões junto a interlocutores da própria indústria farmacêutica interna na Irlanda sobre essa questão. Por fim, vale destacar também que vemos com muito bons olhos o envolvimento, a participação do setor farmacêutico da Irlanda, bem como de outros países na adesão a esse modo de conduta e também vale ressaltar que sem uma participação das ONGs, não seria possível alcançar um impacto maior. As indústrias farmacêuticas do mundo já estão percebendo que não é possível trabalhar em isolamento, elas devem trabalhar conjuntamente com as ONGs e já se tem uma clara compreensão do papel importante e da importante voz que as ONGs podem vir a apresentar e sua contribuição no caso de produtos farmacêuticos.

Ministro Ligiero: Senhor Primeiro Ministro, embora tenha sido a última pergunta, há uma jornalista que gostaria de complementar uma informação.

Pergunta inaudível

Sr. Bertie Ahern: Há duas áreas em particular onde esses projetos podem acontecer. Há uma importante área em que a Irlanda tem um grande número de empresas nacionais, que é a área de tecnologia da informação. São empresas que operam mais particularmente no ramo de negócios relacionados à Internet, sobretudo no seguimento mais avançado de negócios pela Internet. Essas empresas hoje são enormes exportadoras para a maior parte do mundo, para grandes regiões do mundo, porém não para esta região do mundo, o que se apresenta naturalmente como uma importante oportunidade de negócios. A segunda grande área de investimentos ou projetos em perspectivas entre os dois países é na área da Educação. A Irlanda possue uma série de empresas que operam no ramo educacional, não só na área de treinamento ou capacitação qualificada, mas também na área de desenvolvimento de programas de computador. Na verdade muitas dessas empresas estão atualmente já registradas na Bolsa de Valores Nasdaq. No Brasil entendemos que há 36 milhões e alunos no primeiro nível do sistema educacional. Na Irlanda temos apenas um milhão. Isso se abre como uma oportunidade de possível investimento. Mesmo apesar da queda experimentada nos últimos 7 a 8 meses na economia como um todo, o setor educacional pode superar essa tendência, como que nadando contra a maré, que prevaleceu em todas as demais áreas. Logo temos aqui uma enorme oportunidade e acreditamos que as empresas irlandesas de fato virão e investirão nesse setor.

Pergunta inaudível

Sr. Bertie Ahern: Eu poderia oferecer uma longa resposta a esta pergunta, mas devido à pura falta de tempo eu vou me abster de uma longa resposta, mas eu vou frisar unicamente que não concordaria com a sua premissa, conforme expresso na sua pergunta, porque se pegarmos um único número, uma única cifra relacionada à Irlanda veremos que dentre todos os produtos gerados na economia irlandesa, cerca de 83% dos produtos que fabricamos se destinam a mercados de exportação, portanto mercados externos. Logo vale concluir que não é o processo de liberalização comercial, o processo de abertura o fator mais importante, mas sim o fator competitividade da economia de um país. Se a economia de um país não for competitiva, independentemente da legislação, independentemente da regulação que se injete nesse tipo de economia, ninguém acabará comprando os produtos. Logo, não é tanto o processo de abertura ou liberalização comercial e econômica, mas sim o fator competitividade de um determinado país que eu entendo ser o mais importante.

Gostaria de agradecer à Presidência, à Comunicação Social do Palácio por organizar esse evento e também ao intérprete por seu trabalho.

(texto não revisado)

barra.jpg (4916 bytes)