Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no jantar oferecido pelo Presidente Bashar Al-Assad

Palácio Damasceno
Damasco – Síria

 

É com grande satisfação que me encontro hoje na Síria. Minha satisfação é tanto maior porque sou o primeiro presidente do Brasil a visitar esta terra dos antepassados de tantos brasileiros.

Não é por acaso que escolhi a Síria como primeiro destino da viagem que faço pelo mundo árabe.

Nossas relações têm uma dimensão humana única, que se expressa na comunidade de mais de 2 milhões de descendentes de sírios que hoje vivem no Brasil.

Uma comunidade perfeitamente integrada, que tanto contribuiu e continua a contribuir para a construção da identidade social e cultural do meu país.

Somos países com a aspiração comum ao desenvolvimento sustentável e ao bem-estar de nossos concidadãos.

Nossos governos estão empenhados na renovação da vida econômica e política.

Minha visita tem como objetivo explorar essas afinidades e pontos de aproximação.

Queremos ampliar nosso intercâmbio econômico-comercial, ainda muito aquém de seu potencial.

Demonstração viva desta disposição é a expressiva comitiva de empresários que me acompanha.

Vamos expandir a cooperação em diversas áreas.

Os acordos que assinamos hoje, nos mais variados campos, reforçam nosso compromisso em trabalharmos juntos.

O Brasil é país de vocação global e, por isso, deseja estreitar suas relações com todas as partes do mundo.

Somos também um país empenhado em moldar políticas de desenvolvimento e de integração. Na América do Sul, estamos colhendo os primeiros resultados, que queremos compartilhar com nossos irmãos árabes.

Tenho certeza de que teremos muito a aprender com nossas respectivas experiências para aumentar os fluxos de comércio, capital e tecnologia entre nossos países e regiões.

No seminário empresarial de que participei, há pouco, convidei os homens de negócios brasileiros e sírios a apostarem na integração econômica e comercial.

Não tenho dúvida de que, em breve, veremos os benefícios deste empenho.

Estou convencido de que precisamos utilizar nossa voz conjunta, o nosso potencial como consumidores e como opinião pública, para sermos ouvidos pelos países mais ricos.

Por essa razão, entre outras, agradeço o apoio de Vossa Excelência à proposta de realização da Cúpula América do Sul – Países Árabes, no Brasil, em 2004.

Na verdade, nossos países não podem conformar-se com a lógica econômico-comercial dos últimos séculos, que gerou riqueza de maneira tão injusta e assimétrica.

Juntando forças nos fóruns internacionais e colaborando mais estreitamente entre nós, poderemos mudar em nosso favor a geografia comercial do mundo.

Queremos, naturalmente, aprimorar nossas relações com os países desenvolvidos, mas não podemos limitar nosso intercâmbio aos vínculos com os países ricos.

Até mesmo para sermos respeitados por eles numa relação que não seja de dependência, mas de autêntica parceria.

Senhor Presidente,

Síria e Brasil também são a encruzilhada de povos das mais diversas origens e crenças, que forjaram identidades multiculturais e tolerantes.

No Brasil somos orgulhosos de nosso patrimônio cultural árabe, que é, hoje, parte de nossa identidade nacional.

Acompanhamos com grande interesse e preocupação os acontecimentos no Oriente Médio.

Desejamos ver prevalecerem a paz e o entendimento no lar de tantos de nossos parentes e antepassados.

No Brasil, onde árabes e judeus convivem de forma harmônica e produtiva, estamos convencidos de que a paz é possível e urgente.

Apoiamos, portanto, com confiança e expectativa, os esforços em curso para alcançar a reconciliação entre os povos do Oriente Médio.

Confiamos que a Síria, pelo seu papel estratégico na região, contribuirá para as iniciativas que possam levar a este objetivo.

Defendemos firmemente a criação de um Estado palestino.

Estamos convencidos de que o caminho à frente é o do diálogo e da negociação e nunca o da violência e do terrorismo.

A continuada ocupação de territórios palestinos, a manutenção e expansão de assentamentos são inaceitáveis.

Confiamos que o Roteiro da Paz e a Iniciativa Árabe da Paz oferecem alternativas convergentes para o estabelecimento de um Estado palestino independente no mais breve prazo, ao mesmo tempo que atende às preocupações com a segurança de Israel.

O direito de um povo exercer soberania sobre seu território é inalienável.

Por isso, o Brasil está votando nas Nações Unidas em favor da resolução que exige a devolução à Síria das Colinas de Golã.

Defendemos uma participação ativa das Nações Unidas na solução dos problemas da região e a efetiva aplicação de suas resoluções, enquanto expressão da vontade coletiva da comunidade internacional.

Lamentamos a guerra do Iraque. Entendemos que soluções por via diplomática são sempre as mais positivas e duradouras.

Queremos um maior envolvimento das Nações Unidas e dos Estados árabes no esforço de reconciliação e reconstrução daquele país.

São esses os princípios e linhas de ação que nortearão a atuação do Brasil a partir do ano que vem, quando retorna ao Conselho de Segurança como membro não-permanente.

Além disso, estaremos dispostos a emprestar nosso apoio a iniciativas que busquem a paz, a justiça e a reconciliação.

Temos que lutar por uma ordem econômica e política no mundo que seja mais justa e mais democrática.

Por isso, defendemos a reforma das Nações Unidas, especialmente do Conselho de Segurança, que deve ser mais representativo das realidades do mundo de hoje, com países em desenvolvimento entre os seus membros permanentes.

Somente assim terá a legitimidade indispensável para que suas ações sejam efetivamente respeitadas.

Queremos fortalecer o multilateralismo e a prevalência do Direito Internacional.

Estamos certos de que Brasil e Síria estarão juntos nessa empreitada.

Senhor Presidente,

Minha visita retraça a viagem que muitos sírios fizeram em direção ao Brasil, em busca de novas perspectivas de vida.

Estou aqui para trazer a mensagem de que queremos que essa relação seja, cada vez mais, uma via de duas mãos ligando nossos países.

Estou certo de que a generosa hospitalidade com que estou sendo recebido será a marca desse intercâmbio entre nossos países.

É dentro desse espírito que proponho um brinde à felicidade do presidente Bashar Al-Assad, à prosperidade crescente do valoroso povo sírio e à determinação de seguir trabalhando para construir um futuro de paz duradoura e de desenvolvimento com justiça social para nossas nações.

Muito obrigado.