Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em ato público comemorativo do Programa 1 Milhão de Cisternas Rurais

Lagoa Seca - PB

 

Meus queridos companheiros e companheiras de Lagoa Seca,
Meus queridos e queridas companheiras do Estado da Paraíba,
Meu caro companheiro governador do Estado, Cássio Cunha Lima,
Meus companheiros ministros de Estado, Jacques Wagner, do Trabalho; Roberto Amaral, da Ciência e Tecnologia; Ciro Gomes, da Integração Nacional; Olívio Dutra, ministro das Cidades; Waldir Pires, ministro do Controle e da transparência; José Graziano, ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome,
Deputado Marcondes Gadelha,
Deputado Benjamin Maranhão,
Senador José Maranhão,
Meu caro senador Ney Suassuna,
Companheiros parlamentares,
Nossa querida Cozete Barbosa, prefeita de Campina Grande,
Meu caro Francisco Coutinho, prefeito de Lagoa Seca e demais prefeitos desta região,
Senhor Gabriel Jorge, presidente da Febraban,
Senhora, querida companheira, Valquíria Lima, presidente da Asa Brasil,
E meu caro companheiro Nelson Anacleto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa Seca,

Antes de falar, eu queria homenagear algumas pessoas. Queria, primeiro, dizer que vocês não têm nenhuma obrigação de compreender o que está acontecendo neste ato, aqui, em Lagoa Seca. Não sei se vocês estão compreendendo o que está acontecendo, mas quero o quê? Que a imprensa nacional e a imprensa da Paraíba percebam o que está acontecendo hoje.

Vocês ouviram, aqui, um homem chamado Gabriel Jorge. O Gabriel Jorge nada mais é do que presidente da Federação Nacional dos Bancos do nosso país, a Febraban. Eu duvido que haja, neste palanque aqui, algum político que já não tenha, em vários momentos, descarregado a sua ira em cima dos bancos brasileiros. Duvido. Deste que lhes fala a muitos que não falaram. E duvido, também, que tenha havido algum momento em que a maioria dos banqueiros não tenha ficado com medo do Lula ser presidente da República.

Pois bem, tem um companheiro nosso que o Anacleto também não tinha nem obrigação de saber pronunciar o nome dele direito – porque eu, que convivo com ele há 30 anos, não sei –, que eu queria chamar aqui, que é o companheiro Oded Grajew.

O Oded Grajew, para quem não conhece, é um velho companheiro meu, há quase 30 anos. Era um companheiro empresário em São Paulo. Eu o conheci ainda quando estava no movimento sindical. Ele era presidente do Sindicato das Indústrias de Brinquedos do Estado de São Paulo, era presidente da Fundação Abrinq no Estado de São Paulo e sócio de uma empresa de brinquedos chamada “brinquedos Grow”.

O Oded nunca foi de fazer política. Mas quis o destino que, um dia, ele se aproximasse de mim. Ele já conhecia o nosso companheiro Jair Meneguelli. E o Oded começou, então, a nos ajudar nas campanhas políticas. Até que um dia ele falou para mim: “Lula, eu vou deixar de ser empresário. Vou vender a parte da minha fábrica e vou me dedicar um pouco a muitas coisas em que acredito neste país.” E o Oded, então, deixou de ser sócio das indústrias Grow e continuou num trabalho, tentando organizar vários segmentos empresariais, para que os empresários fossem mais solidários e pudessem começar a fazer política social.

Não vou contar toda a história do Oded... Não sei quem falou com ele da ASA – Associação do Semi-Árido. Não sei quem falou com o Oded das cisternas. Um dia, o Oded entra na minha sala – eu, já presidente da República – e fala para mim o seguinte: “Presidente, vou fazer um ato e queria a sua presença, porque a Febraban vai fazer um acordo com a ASA nacional e vai assumir o compromisso de fazer algumas cisternas neste país”. Eu participei do ato da assinatura do acordo. E aquilo que parecia impossível aconteceu: a Febraban não só fez o acordo assumindo o compromisso de construir 10 mil cisternas, como eu não tenho dúvida de que à Febraban parecia impossível esse acordo... Vieram, ontem, de carro, de Recife para cá. E, Gabriel, eu queria dizer na sua frente: duvido, depois de você conhecer uma cisterna, ao vivo, e depois de você ver o povo de Lagoa Seca, que a Febraban não vá assumir o compromisso de construir mais 10 mil cisternas, depois dessas que vocês estão concluindo agora. E, depois, mais outras 10 mil. Porque não vamos parar.

E eu queria dizer que isso se deve ao trabalho desse companheiro chamado Oded Grajew, que tem dedicado o tempo dele para ajudar a conscientizar os empresários de que eles podem participar, de forma mais solidária, de várias políticas públicas que o governo federal pode fazer.

Mas também queria agradecer o discurso do companheiro Anacleto, porque o Anacleto disse coisas sábias. A principal coisa que o Anacleto disse, e que bateu muito forte na minha consciência, foi pedir para que eu não esquecesse e não deixasse de levar em conta as experiências bem sucedidas no Nordeste brasileiro.

Essa sua afirmação, companheiro Anacleto, faz parte da minha vida política. Aliás, acho que, muitas vezes, os governos erram muito porque as decisões são tomadas de cima para baixo, por mais vontade política que tenha, sem levar em conta as experiências.

E nós queremos adotar não apenas as experiências boas que foram colocadas em prática por milhões e milhões de brasileiros, em várias áreas da nossa atividade econômica, como quero levar em conta as experiências boas colocadas em prática por outro governo.

Afinal de contas, se alguma coisa está dando certo neste país, não temos por que não assumir a responsabilidade de continuar tratando com carinho aquelas coisas que já estão dando certo, para não inventar uma outra coisa que, depois, não dá certo e o dinheiro público é jogado no ralo, sem que a gente preste contas ao povo deste país.

Quando começamos com o Programa Fome Zero, algumas pessoas diziam que o Programa Fome Zero era dar esmola para o povo, que o povo quer trabalhar, não quer comida. Eu sonho com as mesmas coisas que, durante 30 anos, venho dizendo neste país. Eu sonho que cada mulher e cada homem deste país consiga sobreviver com a maior dignidade, sem precisar de dinheiro e sem precisar de comida do governo, mas através do seu trabalho, do seu emprego e do seu salário.

Mas, enquanto isso não vier, nós temos no Brasil quase 50 milhões de pessoas que vão dormir, toda noite, sem ter o que comer. Temos milhões de crianças neste país que levantam, de manhã, e não têm um pedaço de pão, um copo de leite e um copo de café para tomar. Temos milhões de crianças neste país que não vão à escola porque estão fragilizadas pela desnutrição, e quando vão não conseguem aprender corretamente porque não estão comendo as calorias e as proteínas necessárias à sobrevivência humana.

Nós queremos garantir para as pessoas o direito de trabalhar. É por isso que eu disse, antes, durante e depois da campanha: gerar empregos é uma obsessão, porque é o emprego que dá dignidade ao ser humano. É um cidadão ou uma cidadã trabalhar e viver com o seu salário que lhe dá o direito de andar de cabeça erguida, de não vender o seu voto na época da eleição, de não ficar dependendo de favor desse ou daquele político numa cidade, num estado ou no governo federal. Mas enquanto isso não vem, nós vamos fazer o Programa Fome Zero atender à plenitude das pessoas que estão com fome neste país.

O meu compromisso é que até o final do meu mandato nós vamos atender a todos as famílias que hoje ganham um salário abaixo da linha da pobreza. E eu sei que não é fácil, eu sei que é difícil, porque o Brasil é muito grande, porque o Brasil estava desarrumado, porque o cadastro das políticas sociais que eram feitas neste país não estava correto. Nós descobrimos que havia pessoas recebendo quatro planos e muitas outras sem receber nenhum. Nós descobrimos que havia vereadores que faziam dos programas sociais quase que um curral eleitoral para se elegerem em época de eleição. Moralizar isso não é uma tarefa fácil. Moralizar isso e fazer as coisas corretas é um trabalho que leva tempo. Mas eu, também, não tenho preocupação com o tempo. Eu tenho quatro anos de mandato, tenho toda a paciência do mundo para fazer as coisas corretas neste Brasil e fazer com que este povo recupere o orgulho de ser brasileiro, o orgulho de ser paraibano, o orgulho de ser nordestino. Essa é uma tarefa de que não abro mão – e vamos fazer.

Eu estou vendo, aqui, uma placa dizendo que Lagoa Seca precisa de saneamento básico. Lagoa Seca e mais outros cinco mil municípios do Brasil precisam de saneamento básico. Porque, lamentavelmente, neste país, durante muitos anos o governo não investiu em saneamento básico, porque investir em saneamento básico é colocar dinheiro embaixo da terra, é colocar areia em cima da manilha e não dá para colocar nome de parente numa manilha. Por isso, saneamento não era tratado com decência e dignidade. E nós sabemos que investimento em saneamento básico é o que pode garantir a qualidade da água que você bebe, a qualidade do chão que você pisa e a qualidade da saúde das nossas crianças. É por isso que a Caixa Econômica Federal vai financiar para o Estado da Paraíba 130 milhões de reais, para gastar em saneamento básico. E aí eu espero que Lagoa Seca seja premiada.

Viemos hoje inaugurar o Aeroporto de Campina Grande, porque Campina Grande é uma cidade grande não apenas no nome, é uma cidade grande do ponto de vista da sua população, é uma cidade bem preparada porque tem uma grande universidade, porque tem um grande comércio. E viemos inaugurar o aeroporto porque, também, a Paraíba tem na sua vocação o turismo. E se não houver o direito das pessoas de ir e vir o turismo não vai acontecer.

Mas premiamos o povo da Paraíba, hoje, com um anúncio importante. Lá na cidade de Campina Grande, anunciei ao governador Cássio Cunha Lima que o Governo Federal vai construir o Instituto do Semi-Árido na cidade de Campina Grande para discutir, com muito mais clareza, o problema da seca no nosso Nordeste e apresentar as soluções que eles entenderem que seja necessário colocarmos em prática.

E, por último, quero dizer aos meus companheiros e às minhas companheiras e, sobretudo, ao companheiro Anacleto, que aqui falou também:

Meus amigos e minhas amigas,

Nós completamos, dia 1º, dez meses de governo. Ainda temos três anos e dois meses para fazer aquilo que são os nossos compromissos políticos, programáticos, éticos e morais. Por quê? Porque os compromissos que nós assumimos não é um compromisso eleitoral, é uma coisa que corre no sangue de cada um de nós.

Porque, antes de me candidatar a presidente da República, eu fui conhecer este país, fui aprender o que é a fome, aprender o que é a seca, aprender o que é desemprego, aprender como é a vida daqueles que moram na enchente, como é a vida daqueles que moram na seca. Portanto, eu conheço a vida do nosso povo e conheço as reivindicações desse povo.

E estou cada vez mais convencido de que nós vamos poder resolver grande parte dos problemas que sabemos que existem, e vamos ajudar, como estamos ajudando a Asa. Não que a cisterna vá resolver o problema da agricultura no Brasil, mas vai resolver o problema da água de beber para as famílias.

Eu digo, sempre, que não tenho o pescoço grande porque quando eu tinha sete anos de idade já ia para um açude carregar lata d’água na cabeça, para poder beber. Uma água barrenta, que era água junto com caramujo, com fezes de cabra, de cabrito, de bode, de cavalo e de tudo. E, naquele tempo, a gente não tinha nem educação para coar a água. Era pegar de um pote, deixar assentar, tirar com a canequinha, colocar em outro pote. É por isso que a gente era tudo barrigudinho, cheio de vermes, porque a água não tinha nenhum tratamento.

A cisterna já é uma revolução, porque a água já está melhor tratada, as pessoas podem tratar a água e as crianças podem beber água boa. E, tomando água boa, os dentes das crianças vão nascer mais sadios, as crianças não vão ficar sem dentes e não vão ter cáries. E as pessoas não vão ter que andar léguas e léguas, atrás de um pote d’água para beber. E isso nós vamos fazer.

Eu não sei, companheira Valquíria, se a gente vai conseguir fazer um milhão, lhe confesso que não sei. Mas pode ficar certa: se todo o nosso esforço conseguir chegar a 999 mil, eu acho que nós estamos fazendo uma coisa milagrosa para este país.

E não é o governo que vai fazer, viu, Valquíria? É importante ter claro: nós temos milhões de brasileiros, nós temos muita gente que, se for chamada a participar, participa. Pode ficar certa de que nós temos pelo menos um milhão de pessoas, no Brasil, que poderiam, cada um, dar 1.200 reais para a gente financiar 1 milhão de cisternas. Ficaria barato para todo mundo e a gente poderia fazer. E essas pessoas só irão participar na hora em que a gente criar mecanismos de envolvê-las, porque a sociedade quer participar e o nosso papel é criar a forma da sociedade poder participar, no nosso país.

Portanto, meus amigos e minhas amigas, eu quero dizer para vocês que estou aqui com uma alegria extraordinária. Uma alegria de um homem que olha na cara de vocês e pede para vocês: pelo amor de Deus, não deixem de cobrar de mim aquilo que durante muito tempo eu prometi a vocês. Não deixem de cobrar porque eu, quando deixar o governo, se um dia encontrar com vocês, quero poder olhar na cara de vocês, de frente, olhar no fundo dos olhos de vocês e dizer: “É mais um brasileiro, ou mais uma brasileira que eu pude até não atender o que ela precisava mas, em nenhum momento, menti para ela; portanto, conquistei o respeito dessa pessoa e continuo com uma relação de confiança com vocês”.

Cobrem dos meus ministros, cobrem de mim, cobrem de cada um de nós, do Governo Federal. Aproveitem, de tabela, e cobrem do governo estadual também. E, por tabela, cobrem do prefeito também. Porque político, por melhor que a gente seja, as tarefas são tantas que a gente vai fazendo outras relações de amizade. E a gente não pode esquecer, nunca, quem foi que levou a gente à presidência da República.

E eu tenho consciência de que foi o povo pobre deste país que me elegeu. E é para o povo pobre deste país que nós temos que dedicar as prioridades para as nossas políticas.

Muito obrigado, companheiros e companheiras. Que Deus abençoe cada um de vocês.

E continuem confiando que vamos fazer aquilo que nós assumimos o compromisso de que íamos fazer. As cisternas são apenas um começo. A Bolsa Família é um segundo começo. A compra das sementes de vocês, a questão do leite – que vamos aumentar para 120 mil litros, comprados aqui no Estado – são apenas coisas que estão acontecendo em nove meses. Podem ficar certos de que, em 18 meses, vai ter muito mais; em 36 meses, vai ter muito mais; e, em 48 meses, vai ter muito mais do que o que estamos podendo oferecer hoje.

Muito obrigado, gente. E até outro dia, se Deus quiser.