Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social

Brasília-DF

 

Eu quero cumprimentar todos os conselheiros, e conselheiras,

Cumprimentar os ministros aqui presentes, alguns não estão aqui porque estão participando da Câmara Econômica, pelo menos devem estar esperando o Furlan e o Guido para irem lá, participar da reunião.

Eu não ia falar, por conta de um compromisso que eu tenho no Rio de Janeiro, mas eu acho que essa reunião é extremamente importante para o momento que estamos vivendo na economia, na política, no mundo do trabalho e eu resolvi, antes de viajar, ter uma conversa com vocês. Habitualmente, eu venho aqui para dar bronca. Hoje, eu venho aqui mais “paz e amor” do que nunca.

Uma das características mais importantes que todo ser humano tem são seus valores. Valores são as lentes da alma. Ajudam a enxergar e agir sobre a realidade. Dogmas, ao contrário, normalmente cegam e imobilizam. Muitas vezes, nos conduzem a impasses.

Digo isso, aqui, porque acredito que o Brasil está diante de acontecimentos referenciais que podem mudar nosso futuro imediato, talvez a nossa própria história de longo curso. Devemos, portanto, enxergá-los em todo o seu significado, com base em nossos valores maiores.

Creio que à luz dos indicadores econômicos de produção, emprego, exportações e renda já disponíveis, podemos dizer com razoável dose de consenso: o Brasil entrou na rota do desenvolvimento.

Livramo-nos da imobilidade recessiva de muitos anos. Estamos em plena travessia. E ela, com certeza, vai nos conduzir a um novo ciclo de descobrimentos das nossas potencialidades adormecidas e de muitas ainda não testadas.

A verdade, nua e crua, é que o Brasil viveu, nos últimos anos, nos subterrâneos da sua capacidade econômica, alienado de grande parte da sua criatividade política, atrofiado em relação à sua enorme energia social.

Ajustes econômicos, às vezes, são inevitáveis, mas podem cegar se assumem formas de dogmatismo, como ocorreu nos anos de neoliberalismo hegemônico. Após definhar tanto estruturalmente, o Brasil talvez saiba menos do que precisa saber sobre suas próprias capacidades.

Sei que estamos há apenas dezoito meses nessa viagem em busca de um Brasil novo que pulsa dentro desta nação materialmente tolhida e espiritualmente inferiorizada que herdamos, e que, felizmente, já está mudando.

Sei também que é muito difícil enxergar as transformações quando fazemos parte delas. E mais ainda quando optamos, conscientemente, por fazê-las sem estardalhaço nem conflitos desnecessários, negociando e buscando os consensos possíveis com todos os setores da sociedade.

Fora do governo, mas dentro dele também, talvez seja esta a primeira grande oportunidade de respirarmos um pouco do ar saudável do futuro, testando limites e sondando o horizonte além da neblina espessa que prendia o Brasil a um passado de impossibilidades.

Estes primeiros tempos foram muito difíceis e exigiram esforços árduos e sacrifícios do governo e de toda a sociedade. Os resultados estão começando a ser colhidos agora.

E este Conselho teve papel muito importante nesse processo, porque o desenvolvimento se constrói a partir de consensos. E aqui é, e tem sido, um espaço fundamental para que façamos isso.

Para enfrentar a lógica da estagnação em que estávamos confinados, tivemos de remar com o que tínhamos nas mãos. Todos pagaram um preço.

Ainda assim, é daí, dos mais pobres, que partem muitas vezes sinais firmes do amadurecimento histórico e político da sociedade brasileira, revelando um grau de compreensão de nossos desafios que, não raro, muitas vezes falta a olhares privilegiados e mais imediatistas.

Entendam, pela importância desta reunião e deste Conselho e pelo momento que o nosso país está vivendo, que minhas palavras, em momento algum, não significam um desabafo, significam muito mais que isso, um chamamento. Um chamamento a este Conselho, um chamamento aos trabalhadores e um chamamento à nação brasileira.

Faço-o por acreditar, sinceramente, que o grande tema do desenvolvimento, que se recoloca de modo muito mais concreto a partir de agora, não deve se esgotar nos limites do debate técnico.

Trata-se, sobretudo, de construirmos um novo consenso estratégico nacional. Falo de um entendimento muito bem negociado, de longo prazo, para assegurar que as oportunidades que se abrem para o Brasil não sejam perdidas. Um entendimento que incorpore a grandeza do desafio histórico que está sendo colocado diante desta geração.

Para alcançá-lo, é necessário cada vez mais convergência, baseada em diagnóstico que não desperdice as conquistas acumuladas mas, tampouco, abdique das possibilidades abertas e, principalmente, atenda cada vez mais os clamores do nosso povo, sufocados ao longo da história do Brasil.

Meus amigos e minhas amigas do Conselho,

Pela primeira vez em muitos anos temos um chão relativamente firme para construirmos o amanhã. Creio, na verdade, que temos mais do que isso: temos um consenso básico na sociedade de que é preciso construir o presente e o futuro do Brasil respeitando os nossos valores fundamentais.

As conquistas na economia já são muito palpáveis: avançamos para um superávit comercial recorde este ano, superior a US$ 30 bilhões de dólares, com saldo já acumulado de US$ 18 bilhões e 500 milhões de dólares até julho e um ganho inédito em contas correntes, possivelmente, de US$ 6 bilhões de dólares até dezembro.

A nossa política externa abre novos caminhos e alarga fronteiras para as exportações brasileiras, como se verificou em relação ao acordo histórico obtido na Organização Mundial do Comércio (OMC) no último fim de semana, em Genebra.

Ele prevê cortes nos subsídios agrícolas dos países ricos, o que poderá elevar em US$ 10 bilhões de dólares, ou mais, as vendas brasileiras num certo prazo. Aqui, é importante lembrar o que se dizia neste país depois da reunião de Cancún, do fracasso do Brasil, do erro do Brasil, da teimosia do Brasil. Porque não falta, no Brasil, pessoas com mentalidades subalternas, achando que nós precisamos depender das políticas que os países ricos fazem, pessoas que não acreditam que o Brasil tenha autonomia, que tenha competência para fazer o jogo que interessa ao Brasil.

O dado concreto é que aquilo que parecia impossível, há seis meses, aquilo que parecia impossível em todas as teorias escritas neste país está acontecendo. Nós terminaremos o ano com toda a América do Sul participando do Mercosul e nós demos um passo fantástico em Paris, na última semana, para que finalmente os subsídios agrícolas deixem de ser impedimento para o desenvolvimento dos países mais pobres do Planeta.

Isso significa, para vocês terem idéia, um benefício que pode atingir a ordem de 200 bilhões de dólares no comércio agrícola para os países em desenvolvimento e para os países menores. Foi um passo extraordinário, numa demonstração de que quando queremos as coisas e vamos à luta nós conseguimos. Quando nós ficamos esperando que alguém nos dê aquilo que temos direito, não colhemos porque não plantamos e, aí, não adianta ficar reclamando.

Tinha pessoas que diziam que o Brasil não ia conseguir muita coisa se ficasse brigando com os Estados Unidos na sua relação comercial. Ontem me ligou o presidente da Embraer para dizer – para surpresa dos pessimistas – que o Pentágono fez um acordo para contratar 8 bilhões de dólares em aviões com algumas empresas, das quais a Embraer vai ter uma grande fatia nesses 8 bilhões de dólares.

Uma demonstração de que prevalece uma tese que muitos de vocês têm e que eu tenho: ninguém respeita interlocutor que não se respeita, ninguém respeita interlocutor que ande de cabeça baixa. E o que nós fizemos foi apenas dizer: nós gostamos de nós, nós acreditamos em nós, nós temos direitos e brigamos por eles. E eu acho que os espaços conquistados demonstram que nós estávamos certos. E pretendemos brigar muito mais porque é um campo excepcional.

Estamos, portanto, diante de uma mudança histórica, no nível internacional, tão importante quanto a que buscamos implementar internamente, fazendo, por exemplo, a reforma agrária tranqüila e pacífica, que está avançando cada vez mais, e corrigindo profundamente a estrutura de distribuição de renda do nosso país. O que importa é que estamos numa rota sustentável e vamos avançar com tranqüilidade, com maturidade, sem permitir que a euforia, em algum momento, faça com que saiamos do caminho que traçamos para, definitivamente, colocar o Brasil no rol dos países desenvolvidos.

Eu nasci vendo o Brasil ser um país em vias de desenvolvimento. Depois, eu fiquei adulto vendo o Brasil como um país semi-desenvolvido e, ainda hoje, já estou com 58 anos, e o Brasil continua sendo um país em vias de desenvolvimento. Eu acho que está na hora de nós entrarmos na rota dos países desenvolvidos, definitivamente, e isso não depende de ninguém. Vai depender, única e exclusivamente, de nós. E nós não temos o direito de, como em outros momentos da nossa história, jogarmos fora o alicerce que nós construímos, desmanchá-lo a troco de vaidade, a troco de interesses políticos menores, a troco de disputas menores, ou seja, nós precisamos de um alicerce que dê sustentação a uma boa casa, que signifique garantir que o povo brasileiro seja o herdeiro, e não o governante que exerce o mandato.

A força e a potencialidade da nossa economia alinha-se, com coragem e soberania, às condições, muitas vezes adversas, do comércio mundial.

E o faz com uma perspectiva estratégica, ampliando também nossas exportações de manufaturados, que agregam valor, empregos e competitividade à indústria do país, impulsionando o desenvolvimento de maneira sólida e permanente.

Entre janeiro e junho, as exportações brasileiras de manufaturados cresceram 25% em volume. Se é isso, você confirma aí, Furlan. Um pouco mais? Tanto melhor. Sempre nivelando por baixo para a gente poder causar surpresa.

Confiamos que isso pode facilitar mudanças estruturais em toda a cadeia produtiva, o que certamente vai contribuir para modificar nossa injusta pirâmide social.

As exportações e importações de manufaturados permitem uma irradiação contínua do progresso tecnológico e espraiam ganhos de renda de forma sustentável em toda a cadeia produtiva.

Essa dinâmica também alcança as pequenas e médias empresas que são geradoras de grande número de empregos e promovem amplamente a inclusão social. É preciso deixar bem claro que não podemos perder essa oportunidade por falta de investimentos ou gargalos de infra-estrutura.

A coordenação entre oportunidades e investimentos tornou-se, portanto, a peça-chave do presente e do futuro. O Brasil só tem a ganhar se lograrmos êxito nessa tarefa.

Nas condições atuais, está aqui o nosso ministro Ricardo Berzoini, já podemos garantir que até o mês de julho, os dados vão ser anunciados proximamente pelo Ministro mas, certamente, já ultrapassamos 1 milhão e 200 mil empregos com carteira assinada. O que não é pouca coisa, porque é o maior número desde 1992.

É verdade que em muitos lares ainda temos braços ociosos e que ainda faltam muitas vagas por todo o país. Muitos brasileiros e brasileiras ainda se deitam sem saber como será o seu amanhã, mas este resultado, em termos de empregos com carteira assinada, como eu disse agora, é recorde nos últimos 13 anos, no nosso país.

As fábricas e o comércio estão vendendo mais. Em São Paulo, as vendas da indústria cresceram 22,4% no primeiro semestre. É o melhor primeiro semestre desde 1999. Na região metropolitana paulista o faturamento varejista cresceu 12,5% em junho. Repito: é imperioso que avancemos nessa travessia de modo firme, maduro e tranquilo. Dela dependem não apenas a contabilidade dos negócios, o futuro da economia, mas também o resgate social de milhões de brasileiros e brasileiras.

Meus amigos e minhas amigas do Conselho,

Nenhum vento é bom para quem não sabe onde quer chegar. E nós temos rumo, direção, sentido. Temos o compromisso histórico de chegar num porto seguro que abrigue, com dignidade, todo o nosso povo. Ajudar o Brasil nessa caminhada é o sentido maior deste fórum. Para isso ele foi concebido e começou a funcionar, mesmo antes da minha posse.

Cabe aos senhores e às senhoras, considerando o programa do governo, vasculhar o horizonte, contribuir para coordenar as velas, sugerir rotas, antecipar a navegação. Penso que pelo menos três eixos devam ser considerados nesse sentido: o debate de formulações estratégicas consistentes e atualizadas; a avaliação de políticas e projetos para acelerar os investimentos urgentes; expandir a infra-estrutura pública, elevando a nossa competitividade externa; o estudo de caminhos que façam avançar ainda mais a capacidade de coordenação do destino nacional no mercado globalizado, em parceria com países membros do Mercosul, com o G-20 e demais parceiros de economias em desenvolvimento.

Meus amigos em minhas amigas,

Eu poderia citar Ulysses Guimarães no discurso que ele fez na famosa campanha em 1974, a campanha da resistência, em que ele proferiu uma frase de uma música que talvez seja do Chico, mas cantada pelo Caetano, que dizia: “navegar é preciso”.

Pela primeira vez na história temos, talvez, uma confluência inédita de fatores positivos ao alcance de nossas mãos. Temos vento, leme e as velas. Vamos içar mais alto ainda a nossa coragem e lançarmo-nos ao mar do futuro.

Isso depende única e exclusivamente de cada um de nós. Quando eu digo “cada um de nós”, é cada um dos mais humildes, dos mais pobres ou dos mais ricos dos brasileiros. Nenhuma nação, em nenhum momento histórico, em nenhum lugar do mundo, conseguiu dar passos se o seu povo não acreditou em si próprio: os empresários, os trabalhadores e as donas de casa.

Eu acho que na medida em que todos nós começarmos a utilizar dentro de nós o slogan que está numa campanha na televisão, que é uma campanha de resgate da auto-estima do povo brasileiro... Cada um de nós, ao entrarmos numa reunião como esta, e ao sairmos de uma reunião como esta, nós não poderemos ficar reunidos como se fôssemos um grupo de amigos cercados de inimigos por todos os lados. Nós temos que estar aqui nesta reunião como brasileiros e brasileiras, acreditando piamente que do nosso gesto, do nosso trabalho, da nossa decisão, a gente pode fazer o Brasil avançar um pouco mais.

Muitas vezes eu tenho sido duro; muitas vezes tenho cobrado dos empresários; muitas vezes tenho sido duro com os meus companheiros trabalhadores. Mas a verdade é que não há espaço para política pequena neste momento. O que está acontecendo no Brasil, neste momento, é importante para que a gente decida o que nós queremos a partir de amanhã, o que cada um de vocês pode fazer. E vocês podem fazer muito e vão fazer muito mais se cada um colocar dentro de si e na cabeça a frase que termina uma campanha nossa, que diz: “eu sou brasileiro e não desisto nunca”.

Se todos nós formos tomados desse desejo e dessa força interior, certamente, não haverá intriga, não haverá futrica, não haverá eleição que possa brecar, frear o desenvolvimento que este país precisa e deve ter.

Por isso eu quero desejar a vocês boa reunião e que vocês consigam ajudar a iluminar para que o governo possa acertar cada vez mais.

Boa sorte e boa reunião.