Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de entrega de cartões do programa Bolsa Família

Guarulhos-SP, 02 de fevereiro de 2005

Meu querido companheiro Elói Pietá, prefeito de Guarulhos, e sua esposa Janete Pietá,
Meu querido companheiro Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome,
Meu querido companheiro Humberto Costa, ministro da Saúde,
Meu querido companheiro Olívio Dutra, ministro das Cidades,
Minha querida esposa Marisa,
Meu querido companheiro, senador Aloízio Mercadante,
Meus companheiros deputados federais Orlando Fantasini e Roberto Gouveia,
Meus queridos e queridas companheiros e companheiras prefeitos da região,
Prefeito de Arujá, engenheiro Genésio Severino da Silva,

Prefeito de São Lourenço da Serra, José Merli; de Santa Isabel, Hélio Buscarioli; de Taboão da Serra, dr. Evilásio Farias; de Itapevi, dra. Maria Ruth Banholzer; de Jandira, Miro Taxi, prefeito em exercício; de Osasco, Emídio Pereira de Souza; Embu das Artes, nosso querido companheiro Geraldinho; de Itaquaquecetuba, Armando Tavares Filho; Diadema, meu companheiro José di Filippe; de Ferraz de Vasconcelos, Jorge Abissamra;

Meu querido companheiro Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal,
Meus queridos deputados estaduais,
Meus queridos secretários municipais,
Vereadores,
Meus amigos e minhas amigas,

No ano de 2000, o companheiro Elói era candidato a prefeito desta cidade. E eu vim uma noite fazer um comício, aqui, com o Elói. Nem ele era prefeito, nem eu era Presidente da República. E nós fomos visitar um bairro chamado Bairro dos Pimentas. E no Bairro dos Pimentas, o companheiro Elói me contava do sofrimento das pessoas e, sobretudo, me falava da necessidade de se construir um hospital no Bairro dos Pimentas.

Depois, o Elói ganhou as eleições, tomou posse. E todas as vezes que eu encontrei o Elói, eu perguntava, cadê o hospital do Bairro dos Pimentas, porque eu vi a promessa que ele fez e vi o carinho com que o povo recebeu a idéia do hospital.

O Elói, nos dois primeiros anos de governo, não pôde construir o hospital, até porque quem tinha que financiar o hospital era o governo federal. Em 2002, nós ganhamos as eleições e começamos, em 2003, a plantar o alicerce do cumprimento da promessa mas, sobretudo, da concretização de um sonho do povo de Guarulhos e do Bairro dos Pimentas, de construir um hospital. E quero dizer para o companheiro Elói, e dizer ao meu ministro Humberto Costa – porque daqui nós vamos visitar o hospital, que já está no quinto piso, e é um hospital para 100 leitos – que, se Deus quiser, no começo do ano que vem, estaremos de volta a Guarulhos para inaugurar o tão sonhado hospital da cidade de Guarulhos e do povo do Bairro dos Pimentas.

Mas também estou aqui com o ministro das Cidades, o companheiro Olívio Dutra, com o companheiro Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal, com o nosso companheiro Jorge Hereda, do Ministério das Cidades. E eu estou vendo aqui muita gente da Caixa Econômica Federal porque também nós vamos lá no Parque Jurema. Tem um programa do PAR, onde nós vamos visitar 400 apartamentos que estão sendo construídos. E esses 400 apartamentos são para as pessoas que têm renda até 6 salários mínimos. Mas também lá vai ser assinado um outro acordo: a Caixa Econômica vai começar a construir, através do Ministério das Cidades, 1.200 apartamentos para as pessoas que ganham até 3 salários mínimos.

E, possivelmente, eu quero dizer aos prefeitos da região. E o prefeito que eu não citei, foi porque não estava na minha agenda. Eu nem vi. Cadê o nosso companheiro Caetano, de Suzano? O Marcelo Cândido, de Suzano. Então levanta aí, porque não estava na minha nominata, no começo.

Bem, então esta vinda hoje a Guarulhos é uma vinda um pouco demorada porque já faz dois anos que eu ganhei as eleições, mas eu também precisaria aproveitar a oportunidade para vir fazer não apenas uma coisa, mas vir fazer algumas coisas. Então, hoje, além dessa extraordinária organização da prefeitura com o Bolsa Família, nós vamos visitar o hospital e vamos visitar o conjunto habitacional.

E quero dizer aos prefeitos aqui presentes que, certamente, se os companheiros são novos e não apresentaram ainda as demandas que precisam apresentar ao ministro da Saúde, ao ministro das Cidades, ao ministro do Desenvolvimento Social, a qualquer ministro, não se faça de rogado, porque quando alguém vai a Brasília para conversar, nós não perguntamos de que partido a pessoa é, a que religião a pessoa pertence e para que time de futebol a pessoa torce. Nós só queremos saber se a pessoa está falando em nome da cidade e se as reivindicações da cidade são justas.

Por fim, eu queria dizer ao companheiro Elói e dizer ao povo de Guarulhos que o Programa Fome Zero, no qual está incluído o Bolsa Família, é possivelmente o maior programa de transferência de renda que se tenha notícia na América Latina. Eu não vejo nisso uma vantagem muito grande, porque ter um programa Fome Zero dentro de um país como o Brasil, significa dizer que durante muitos e muitos anos os governantes deste país esqueceram uma parcela da população que, por conta do esquecimento, foi ficando pobre, porque o meu sonho, como brasileiro, o meu sonho como chefe de família, o meu sonho como presidente da República, não é distribuir cartão de programa de governo para ajudar as pessoas mais pobres. O meu sonho é que um dia e, se Deus quiser, isso vai acontecer logo, porque a economia começou a crescer – só nos primeiros dois anos foram mais de 2 milhões de empregos com carteira profissional assinada – o meu desejo é que um dia todo mundo tenha um trabalho e, por conta do seu trabalho, a pessoa receba um salário e possa viver dignamente, sem precisar receber cartão do governo.

Mas acontece que deixaram para nós, ao longo de muitos e muitos anos, uma dívida social quase que impagável, tão grande quanto a dívida pública interna que nós herdamos, tão grande como a dívida externa que nós herdamos. E se nós assumimos o compromisso de honrar contratos com relação às nossas dívidas, não poderíamos deixar de assumir o compromisso e honrar muito mais do que um contrato, honrar a nossa origem, honrar o nosso compromisso de que combater a fome e a miséria tem que ser prioridade do nosso governo, doa a quem doer.

Lógico que quando nós criamos um programa como esse, pode ter equívocos, pode ter erros. Esse Programa é para ajudar a parte mais pobre da população. Na verdade, o que nós estamos dando é uma isca para a pessoa colocar no anzol e pegar um grande peixe, porque o desejo é que todo mundo, depois, saiba pescar. O que nós estamos dando é a iniciação para que uma senhora que tem dois ou três filhos e é muito pobre, tenha a obrigação de colocar os seus filhos na escola, tenha a obrigação de levar os seus filhos para tomar vacina. Se for uma jovem que esteja grávida e precise do Bolsa Família, ela tem a obrigação de fazer todos os exames que o pré-natal indica que devam ser feitos. O Programa, além de dar o dinheiro, educa a pessoa, porque levar o filho para a escola, fazer a vacinação na molecada, na verdade, são benefícios a mais que nós estamos incentivando essa pessoa a ter.

E aqui eu quero fazer justiça, meu companheiro Patrus, meu companheiro Elói, e agradecer o comportamento da imprensa brasileira. De vez em quando a imprensa brasileira demonstra que há uma pessoa inscrita no Programa que não deveria estar, uma pessoa que tem outra fonte de recebimento, uma pessoa que é aposentada, uma pessoa cujo marido trabalha ou que estava desempregado e passou a trabalhar. Muitas vezes, a imprensa mostra isso para a população e muitas vezes nós ficamos zangados e chateados. Mas eu penso que a imprensa está cumprindo o seu papel de informar a sociedade e, ao mesmo tempo, alertar o governo de que nós precisamos agir, como você tem agido, companheiro Patrus, com o acordo que você fez com o Ministério Público e com a Controladoria Geral da União para que a gente exija maior seriedade no cadastramento das pessoas. Só pode receber o Bolsa Família, quem realmente precisa do Bolsa Família, quem não precisa tem que dar o lugar para outra pessoa receber.

Portanto, nós queremos que a sociedade fique alerta, porque se conhecer alguém que está recebendo e não tem direito de receber, nós temos que ser avisados, porque é preciso cortar o recebimento dessa pessoa e dar para outra que não está recebendo que, possivelmente, precise mais do que ela.

Esse não é um Programa para resolver o problema salarial das pessoas, é um Programa para ajudar na alimentação básica da sociedade brasileira que não tem acesso às calorias e às proteínas necessárias. E por isso nós somos exigentes, por isso nós queremos que as crianças estejam na escola, porque quando as crianças estiverem na escola, certamente a gente terá a oportunidade de acreditar que essa criança não vai cair na marginalidade, de que essa criança não vai, amanhã, cair no desvio, porque tem muita gente que acha que nós gastamos muito dinheiro com o Bolsa Família.

Primeiro, quero dizer para vocês que o valor do Bolsa Família é muito barato. É, em média, 80 reais por pessoa. Se eu pudesse, daria mais. E quem sabe, um dia, daremos mais.

Quando for diminuindo o número de pessoas que recebem, possivelmente a gente possa aumentar o dinheiro das pessoas que estão recebendo. Mas pode ficar certo, meu companheiro Patrus, pode ficar certo de que o que nós gastamos com o Bolsa Família, o que nós gastamos com os programas sociais brasileiros, tudo junto, é mais barato do que o que Estado brasileiro gasta com um preso, por mês, neste país. É mais barato do que a gente gasta para cuidar de determinados tipos de bandido, em que somos obrigados a colocar carro-forte para transportá-los, com dez ou 12 policiais atrás, e helicóptero para cima e para baixo. Se a gente for levar em conta o salário de tudo que está envolvido, vai perceber que daria para atender a dez ou 15 famílias por cada preso que está nas delegacias de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, e assim por diante. Portanto, investir em política social, hoje, é permitir que a gente não tenha que construir cadeia amanhã; investir na nossa criança, hoje, é permitir que essa criança não se transforme num delinqüente amanhã. E investir na criança significa investir na família, significa saber como é que está a família, como é que está o pai e a mãe dentro de casa, porque se a estrutura da família estiver boa, se o pai e a mãe tiverem uma boa formação, eles podem ser pobres, mas se eles tiverem o mínimo para comer, eles vão ser criados, os filhos vão ser criados com muita decência e com muita dignidade.

E eu quero aproveitar e dar o meu exemplo. Eu sou filho de uma mulher que criou oito filhos sozinha. Teve 12, mas quatro morreram. Não foram poucas as vezes em que a gente não tinha o que comer dentro de casa; morávamos em oito, mais quatro primos dentro de um quarto e cozinha. Não foram poucas as noites em que a gente não teve o que comer, mas por conta da formação moral da minha mãe, por conta da formação religiosa da minha mãe e por conta dos compromissos que ela tinha com seus filhos, ela criou os oito filhos, todos aprenderam uma profissão, todos casaram e um chegou até a presidente da República deste país.

Eu estou dizendo, companheiro Patrus, porque é muito importante a gente dar o Bolsa Família, é muito importante a gente dar todos os programas sociais que nós fazemos, mas é muito importante a gente começar a olhar como é que estão as famílias dentro de casa. Quando a gente vê uma criança na rua, o Estado tem até política para cuidar daquela criança de rua; quando a gente vê um jovem delinqüente cometer um ato de delinqüência, o Estado tem até como cuidar desse delinqüente, mas o Estado não tem como cuidar da família, ele não sabe como é que está a mãe dentro de casa, ele não sabe como é que está a relação entre a família dentro de casa, porque muitas vezes os problemas que a gente vê na rua, acontecem dentro da casa da gente, não acontecem fora, eles acontecem na nossa casa, na nossa sala, na nossa cozinha. E nós precisamos, então, ter uma política para cuidar disso.

Cuidar da família brasileira, que é a estrutura básica da formação da nossa sociedade, é condição fundamental para que a gente possa sonhar e ter uma sociedade mais harmoniosa, eticamente mais bem formada e que as pessoas possam viver em paz e em tranqüilidade.

Uma vez, o governador Mário Covas ainda era vivo, e ele me disse que gastava 2 mil reais para cuidar de uma criança na Febem, por mês. E eu fiquei imaginando: como é possível recuperar uma criança na Febem, sem recuperar antes o pai ou a mãe? Como é possível colocar assistente social para cuidar daquele jovem separado do pai, da mãe ou da família? Quem sabe, ao invés de gastar 2 mil reais com o jovem, fosse melhor gastar 300 reais com a família, colocar assistente social e fazer com que a família participasse ativamente da recuperação daquela criança, porque tem palavras-chave que não estão no manual da Polícia, tem palavras-chave que não estão no manual daqueles que são carcereiros da Febem, palavras chamadas “amor, paciência e carinho”, já que pai e mãe são insubstituíveis no tratamento da própria família.

Por isso, meus companheiros e companheiras, eu estou mais um dia feliz na minha vida. Eu me levanto todo dia agradecendo a Deus por ter vivido o dia anterior e sempre achando que o novo dia vai ser melhor que o dia que passou

E eu estou convencido de que nós estamos vivendo um momento bom no nosso país. É só olhar as estatísticas da economia, é só ver as estatísticas de emprego.

Ontem eu ouvi mais uma notícia boa, meu querido senador Aloízio Mercadante, a arrecadação do Fundo de Garantia, em 2004, foi recorde histórico do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Isso porque demonstrou o crescimento do emprego.

Mas nós só temos dois anos de governo, ainda temos mais dois e vamos fazer muito mais para que o povo brasileiro, para que as mulheres e as crianças deste país possam acordar todo dia sorrindo porque nenhuma criança foi dormir com fome, porque nenhuma criança acordou e não teve um copo de café com leite e um pão com manteiga para comer. E se a gente realizar isso pode dormir tranqüilo, porque o essencial está garantido, o resto a gente vai à luta e consegue.

Meus parabéns, felicidades a vocês e que Deus abençoe o povo de Guarulhos.

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