Entrevista concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por ocasião da audiência com a diretoria da General Motors do Brasil Ltda.

Palácio do Planalto, 07 de outubro de 2005

Jornalista: Gostou do carro, Presidente?

Presidente: Olha, eu acredito que o carro, mais do que um carro bonito, ele vai mostrar ao mundo a competência da indústria brasileira e da engenharia brasileira. É o primeiro carro de luxo produzido genuinamente no Brasil, engenharia brasileira, tudo feito aqui. Apenas o câmbio, porque nós não temos fábrica de câmbio automático. Mas é um carro, e vocês estão vendo que nenhum jornalista vai poder colocar defeito nesse carro.
Depois, eu acho muito importante o Brasil se apresentar para o mundo mostrando a sua competência na engenharia, mostrando a competência da indústria automobilística. E um carro desse porte, bicombustível, demonstra que nós vamos poder colocar este carro não apenas no mercado interno, que está tendo uma procura extraordinária. Os diretores da GM me informaram que já venderam quatro mil antes de chegar ao mercado, antes do lançamento. Eu fico imaginando, não só para o povo brasileiro, que quer ter mais segurança de combustível, mas para toda a América do Sul, para países em que o Brasil tem fronteira, a gente pode fazer com que um carro desses seja vendido.
Portanto, eu quero dizer à General Motors que está de parabéns. Acho que este carro foi pensado, sua engenharia foi produzida toda em São Caetano, o carro vai ser montado em São Caetano. Significa mais rentabilidade para a empresa, mais geração de emprego, mais renda e mais orgulho para todos nós, brasileiros. Este carro deveria ter um lugarzinho, ali, com a bandeira nacional, assim, porque ele é genuinamente brasileiro.

Jornalista: Agora, Presidente, sobre a reunião de hoje. O senhor acha que os petistas que podem perder o mandato são corruptos ou apenas erraram, mas não em corrupção?

Presidente: Veja, eu não discuti isso. Fiz questão de não discutir e não vou discutir agora. Eu fiz uma reunião com a bancada do PT, dentro de um esquema de reunir outras bancadas. Na próxima terça-feira terei com outro partido político, porque nós temos projetos muito importantes para serem votados e o ano está terminando.
Nós temos o Estatuto da Micro e Pequena Empresa; nós temos o Projeto de Lei da Pré-Empresa; nós temos o Fundeb, e vamos colocar 4 bilhões a mais de reais na educação brasileira, nos próximos anos. E se não forem aprovados esses projetos vai ser um retrocesso para a pequena e média empresa que gera 65% dos empregos no Brasil; para a pré-empresa, a gente quer legalizar a situação dos vendedores ambulantes, das pessoas que vendem um cachorro-quente, nós queremos legalizar a situação dessas pessoas. Tem a reforma política, que é imprescindível que seja votada.
Eu fiquei muito feliz ao saber que o Presidente da Câmara convocou a sessão para segunda e para terça-feira, numa demonstração de que agora nós temos que aproveitar o bom momento deste país.
Veja, nós estamos num ciclo virtuoso, a economia está crescendo, a exportação está crescendo, a importação está crescendo, o emprego está crescendo. Portanto, nós precisamos votar tudo que significa modernizar o Brasil e preparar o Brasil para ser um país altamente desenvolvido, no século XXI.
Eu digo sempre o seguinte: a Europa aproveitou o século XIX, os Estados Unidos aproveitaram o século XX. Pelo amor de Deus, vamos aproveitar o século XXI para transformar o Brasil numa grande Nação, numa Nação verdadeiramente rica, próspera. Nós temos competência para isso, nós temos trabalhadores para isso, temos empresários para isso, precisa apenas a gente ajustar.
Nós vamos entrar num ano de disputa política. Vamos disputar a campanha, mas vamos fazer a campanha de forma a não permitir que o Brasil sofra qualquer embaraço durante o processo eleitoral. Aliás, o processo eleitoral deve servir para politizar a sociedade, não para que a gente fique fazendo coisas que atrapalhem o crescimento do país.
Eu, todos vocês me conhecem, sabem que eu sou um otimista inveterado. Eu acho que o Brasil está entrando numa situação extremamente positiva. Vocês estão vendo os preços das coisas, vocês estão vendo o crescimento do emprego, vocês estão vendo o crescimento da economia.
Quando a GM vem aqui apresentar um produto desses, fabricado no Brasil, pensado por brasileiros, e ainda me informam que vão contratar mais 50% de engenheiros, que é para a engenharia brasileira ficar mais competitiva, nós temos que acreditar. Se nós não pensarmos no Brasil, não acreditarmos no Brasil, por que os nossos competidores vão acreditar?
Então é isso. Eu quero dizer para vocês que eu estou satisfeito. Estamos entrando no final de ano com as coisas andando bem. Eu estou tranqüilo, estou achando que o Brasil, finalmente encontrou o seu rumo.

Jornalista: O senhor acha que o pior da crise já passou, Presidente?

Presidente: Não tem pior ou se já passou. Veja, crise é crise. O que nós estamos dando é uma lição também ao mundo. Veja, qual governo, na história deste país funcionou com três CPIs funcionando o dia inteiro?
E vocês estão percebendo que eu estou cumprindo um ritual de um Presidente da República, tenho viajado, tenho inaugurado obras. Tem gente que fica incomodado porque eu viajo para inaugurar obras. Ora, meu Deus do céu! Mas as pessoas pediram a vida inteira, agora que elas estão ficando prontas...
Quando a gente planta um pé de jabuticaba e rega todo dia, o que a gente espera? Quando der jabuticaba a gente chupar. O que eu não posso é deixar de tirar proveito das coisas que nós estamos inaugurando, das coisas que nós fizemos.
O que eu posso dizer é o seguinte: não haverá crise, nem no Brasil, nem no mundo, que vá me tirar da rota de seriedade e de acreditar que o Brasil finalmente resolveu se transformar numa Nação altamente produtiva, altamente solidária e altamente competitiva.

Jornalista: Hoje há uma grande questão em torno da mídia. Qual é a opinião do senhor sobre essa possibilidade, aventada pela bancada do PT, de uma possível renúncia? Isso não seria ruim para o PT, haver a renúncia?

Presidente: Permita-se, com toda a gentileza do mundo, não entrar nesse assunto. Este é um assunto pertinente à bancada, pertinente à Câmara. Quando eu tiver os problemas aqui dentro eu resolvo, lá eles resolvem.


 

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