Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia alusiva às obras de ampliação e melhoramento da infra-estrutura portuária de Itajaí

Itajaí-SC, 17 de março de 2006

Meus companheiros, minhas companheiras de Itajaí, de Santa Catarina,

Meu caro companheiro governador do estado, Luiz Henrique,

Meu caro companheiro Fritsch, secretário especial de Pesca,

Minha querida Ideli Salvatti, senadora da República,

Meus caros deputados federais, Carlito Merss, Jorge Boeira, Mauro Passos,

Deputado Vignatti,

Meu querido companheiro prefeito desta cidade Volnei José Morastoni,

Meu querido companheiro Décio Lima, superintendente do Porto de Itajaí,

Nossos companheiros deputados federais,

Prefeitos e prefeitas aqui presentes,

Vereadores e vereadoras aqui da região,

Meus amigos, minhas amigas,

Eu penso que o companheiro Volnei tem muito a cara de tudo aquilo que está sendo feito neste Porto de Itajaí. Eu ainda não era o presidente da República, não tinha eleição para a Presidência da República, mas para prefeito desta cidade – antes dele ser eleito, porque ele perdeu a primeira eleição – e, cada vez que se encontrava comigo, sendo deputado estadual, ele falava desse Porto como se estivesse falando de uma coisa que ele amava profundamente. E hoje quis Deus que ele, sendo prefeito da cidade, e eu presidente da República, a gente possa estar aqui, junto com o governador, comemorando o maior investimento neste Porto, desde que este Porto existe. Um investimento que não é mérito do presidente da República, do governador do estado ou do prefeito, individualmente, é mérito do povo brasileiro que trabalhou, perseverou, perseguiu e, hoje, o Brasil virou um país muito grande na área de exportação. Nós já exportamos, já temos uma balança comercial, entre exportação e importação, de praticamente 195 bilhões de dólares, e só de exportação, em 12 meses, já chegamos a 120 bilhões de dólares. Era quase impossível acreditar.

A gente, quando governa, vai aprendendo que não tem nada impossível. O impossível é apenas um pouco mais difícil, mas se a gente perseverar, a gente consegue conquistar.

Eu, de vez em quando, fico vendo as pessoas quererem e eu sei que o Volnei sente isso na carne, o Luiz Henrique, o Fritsch sentiu quando foi prefeito de Chapecó; o Décio, quando foi prefeito de Blumenau, porque muitas vezes as pessoas têm muita pressa que as coisas aconteçam, é como se a gente ficasse inquieto, a gente planta um pé de laranja e não espera ele brotar, a gente já quer chupar a laranja. Primeiro, nós temos que regar, brotar, ter paciência, capinar, tirar os carrapichos que estão nascendo do lado dele, para depois ver a primeira laranja e chupar essa laranja. Ser administrador é exatamente isso. Tem todo um processo.

E quantos e quantos anos vocês esperaram, quantos e quantos anos vocês esperaram para que este Porto tivesse um investimento. E agora está acontecendo, este Porto vai duplicar a sua capacidade de embarque de carga, conseqüentemente vai duplicar a sua capacidade de receber carga.

Eu queria só dar um intervalo aqui, porque quando esse menino veio aqui gritar, o que ele queria era exatamente isso, era chamar a atenção para que imprensa pudesse... Mas é assim no Brasil inteiro, o que nós precisamos compreender apenas é que democracia é isso. Poderia ser mais civilizada, mas democracia é isso. Mas, de qualquer forma, eu fico sempre imaginando que se Jesus Cristo, que era Jesus Cristo, em uma mesa de 12 pessoas teve um traidor, vocês imaginem um governante.

Então, vamos apenas dizer que este Porto aqui já foi responsável por 4% do superávit da balança comercial brasileira. É, também, o primeiro porto brasileiro em movimentação de carga com valor agregado. Veja, enquanto no Brasil, possivelmente cada quilo de carga exportada custa um pouco... 40 ou 50 centavos de dólar, aqui cada quilo custa um dólar e seis centavos.

E, por incrível que pareça, apesar de sua importância para o nosso país, este Porto não recebia uma obra importante desde 1950, portanto, há 56 anos. Trata-se de mais um exemplo da maneira pela qual a infra-estrutura foi tratada no Brasil, ao longo do tempo. O “apagão” do setor elétrico, de triste memória para todos nós brasileiros, não foi o único preço que o Brasil e os brasileiros foram obrigados a pagar pela falta de planejamento e de investimento. Não foi, e vocês sabem que não.

Por isso, nós criamos um grupo de trabalho interministerial que, em 1994, visitou todos os portos brasileiros e decidimos reconstruir, praticamente, 11 dos principais portos brasileiros que são responsáveis por 93% de tudo o que entra no Brasil e tudo o que sai do Brasil, via navios. E, com isso, começamos a corrigir o problema desses portos.

Nesses três anos de governo, nós estamos recuperando o papel dos portos como indutores do nosso desenvolvimento. Multiplicamos por mais de três o volume de recursos destinados à infra-estrutura. Da previsão orçamentária de 198 milhões de reais, em 2003, saltamos para 670 milhões de reais previstos para este ano, e temos, ainda, sabemos que temos, muito a fazer. Encontramos os portos brasileiros sucateados e as dificuldades enfrentadas para superar esse estado de coisas não foram poucas. Mesmo assim estamos realizando obras de recuperação e de melhoramento em 17 portos públicos, como o de Itajaí, São Francisco do Sul, Rio Grande, Santos, Sepetiba, Rio de Janeiro, Vitória, Salvador, Aratu e Itaqui. Todos esses portos estão recebendo obras e investimentos em dragagem, recuperação de molhes, derrocamento, construção de instalações para inspeções fitosanitárias, modernização de sinalização náutica e melhoria dos acessos portuários entre outros.

A notável evolução da produtividade dos portos brasileiros confirma o acerto da nossa decisão de investir na recuperação da infra-estrutrura portuária. Entre 2003 e 2005, houve um crescimento de 18,21% na movimentação geral de cargas, incluindo granéis sólidos, líquidos e carga geral. Crescimento ainda mais notável, de 44%, foi alcançado na movimentação de unidades de contêineres, passando de 2 milhões e 700 mil unidades em 2003, para 3 milhões e 900 mil unidades em 2005.

Itajaí, segundo maior porto brasileiro em movimentação de contêineres de longo curso, o Porto de Itajaí movimentou cerca de 650 mil unidades no ano passado. Com as obras que estamos atualmente realizando, deverá mais que dobrar sua capacidade, passando para mais de 1 milhão e meio de unidades. Isso significa o quê? Significa que se a gente dobrar a capacidade de exportação desse porto, a gente vai ter mais empregos, a gente vai ter mais salários, o prefeito vai receber mais imposto, o governo vai receber mais imposto, a cidade vai melhorar, o estado vai melhorar e a vida das pessoas vai melhorar neste país.

Itajaí tem razões de sobra para se orgulhar. Não foi em vão a luta do povo pela municipalização de seu porto. Luta que o companheiro Volnei também assumiu com unhas e dentes, e muitos achavam que era loucura, naquela época, conquistar a municipalização. Mas se é motivo de orgulho e fonte de geração de empregos, com 15 mil postos de trabalho diretos e indiretos, o Porto de Itajaí também gera a circulação de 2 mil carretas por dia pela cidade. Um transtorno que, felizmente, tem data para terminar também. A construção de 6 quilômetros e meio de via portuária, ligando a BR-101 ao porto, vai aliviar os moradores de Itajaí desse tráfego pesado, melhorando, assim, a sua qualidade de vida.

Minhas amigas e meus amigos,

Terminada esta cerimônia, vou participar do batismo do navio pesqueiro Paulo Cantídio, que vai operar aqui no Porto de Itajaí, com capacidade de armazenar 180 toneladas de pescado. Este é o primeiro navio a receber recursos do ProFrota, o Programa Nacional de Financiamento da Ampliação e Modernização da Frota Pesqueira Nacional.

O ProFrota, criado pelo nosso governo e coordenado pela Secretaria Nacional de Aqüicultura e Pesca, vai ser implementado durante quatro anos, resultando em investimentos de 1 bilhão e 200 milhões de reais. Outros nove grandes navios estão em fase de construção, em vários estados, além de vinte outros projetos que já foram selecionados e em breve serão realizados.

Afinal, é difícil entender porque havia financiamento disponível para comprar um carro ou um caminhão, mas não para construir um barco ou um navio, e gerar emprego para os pescadores e portuários do Brasil. Vocês percebem que qualquer pessoa pode, tendo dinheiro, comprar um carro e financiar em 36 meses, 48 meses, 60 meses. Agora, um pescador que quer trocar o seu barco não tinha financiamento. Então, nós resolvemos esse problema com o ProFrota e agora da mesma forma que um cara pode entrar numa loja e comprar uma motocicleta ele vai poder financiar um barco e vai poder facilitar a sua vida enquanto trabalhador da pesca.

Quero terminar dizendo que o ProFrota e as obras do Porto de Itajaí são exemplos do desenvolvimento que nós queremos para o nosso país. Assim, fazemos com que o crescimento econômico ande de braços dados com os programas sociais, gerando empregos, distribuindo renda e melhorando cada vez mais a vida do trabalhador brasileiro.

Aqui eu quero dizer para vocês uma coisa que eu considero extremamente importante. O estado de Santa Catarina, eu sempre digo que Santa Catarina é um estado privilegiado se comparado a outros estados brasileiros que eu conheço pela qualidade de vida que o povo deste estado conquistou, pela beleza das praias e por tantas coisas que tem aqui.

É importante a gente perceber o que aconteceu neste estado em dois anos. Governador, o ProUni, que foi uma engenharia de inteligência extraordinária do nosso ministro da Educação, Fernando Haddad e do ex-ministro Tarso Genro, em que fizemos um convênio com as faculdades particulares, fizemos inversão de impostos e transformamos a diferença em bolsas de estudo. Só aqui, no estado de Santa Catarina, no ano passado, no primeiro semestre, foram 1.900 alunos que ganharam bolsa e, no primeiro semestre de 2006, serão 2.005 estudantes, totalizando praticamente 4.000 jovens que não tinham direito à universidade porque não podiam pagar, que vão conseguir estudar agora, sem precisar pagar.

Uma outra coisa importante que nós fizemos neste estado e, lamentavelmente, a gente não pode fade fazer para as cidades, só para as capitais, é o ProJovem. O ProJovem é um programa para cuidar de jovens de 18 a 24 anos de idade que tinham desistido do ensino fundamental, não tinham completado. Nós estamos chamando esses jovens, via prefeituras das capitais, e só nas capitais por enquanto estamos fazendo, e estamos chamando esses jovens, estamos dando 100 reais para eles, com o compromisso de voltarem a estudar, aprender uma profissão e prestar um trabalho comunitário.

Tem muita gente que acha que a gente não deveria dar dinheiro para o jovem estudar, que era obrigação ele voltar a estudar. Eu quero dizer para vocês que o dinheiro que a gente tiver medo de gastar com educação, a gente vai ter que gastar depois com o presidiário. Portanto, é melhor gastar antes que a gente possa...

Um outro programa interessante, aqui em Itajaí deve ter menos do que em outro lugar do Brasil, é o programa Luz para Todos, ou seja, é um programa para tirar os brasileiros das trevas. Só sabe o que é o programa Luz para Todos quem já viveu numa casa à luz de candeeiro, à luz de lamparina, como se chamava. Então, nós, até 2008 iremos levar energia elétrica para todas as residências do Brasil que não tiverem. Pode ser na “conchichina”, dentro do Brasil. Se não tiver energia elétrica vai ter um bico de luz para a pessoa poder ter uma geladeira, ter uma televisão, ter um liquidificador, para a pessoa poder fazer as coisas que todo mundo gostaria de fazer, tendo acesso a alguns benefícios.

Outro programa interessante, e esse aqui é o meu xodó, é o Bolsa Família, que é um dos braços do programa Fome Zero. No estado de Santa Catarina, 137 mil e 400 pessoas recebem o Bolsa Família, o governo federal passa para o estado, através da Caixa Econômica Federal, 91 milhões e 200 mil por ano para cuidar dessa parte mais pobre da população, porque o Bolsa Família não vai resolver definitivamente o problema da pessoa. Apenas está dando a mão para tirá-la de uma situação periclitante e dar a ela a possibilidade de arrumar um emprego e ganhar a sua vida dignamente.

Mas uma coisa interessante é o Pronaf, eu estou aqui num porto e me desculpem, eu vou falar do Pronaf. Não deveria estar falando, mas vou falar do Pronaf. O Pronaf de Santa Catarina, na safra 2001/2002, tinha 108 mil contratos. Hoje, na safra do ano passado que terminou em julho, ele tinha 154 mil contratos. Em 2002, gastou-se 274 milhões de reais, hoje há 739 milhões para o Pronaf, o que é uma coisa extraordinária, um crescimento de 169%. E, para a safra de 2005/2006, que vai terminar em julho deste ano, já tem 191 mil e 725 contratos com o gasto de... gasto, não, com o investimento e financiamento para o trabalhador de 1 bilhão de reais.

Então, vocês imaginem que, na agricultura familiar, este estado aqui possivelmente seja uma revolução, não só porque já tinha uma cultura extraordinária do povo deste estado com a pequena propriedade, mas porque o Banco do Brasil voltou a aprender a lidar com o povo pobre. Ao invés de receber um só e dar todo o dinheiro para aquele um só, é melhor receber 191 mil e dar um pouco para cada um, porque assim a gente faz mais justiça e a gente pode permitir...

Na questão da habitação, eu estou vendo ali uma propaganda da Caixa Econômica no estado, em todos os projetos da Caixa Econômica no estado aqui, créditos e tudo, a Caixa Econômica está fazendo investimentos extraordinários. Na área de habitação, o acumulado entre 2003 e 2005 foi de 579 milhões e 700 mil reais.

Eu acredito, meus companheiros e companheiras, que tudo isso explica porque eu sou um brasileiro otimista. Eu estou convencido de que o Brasil, finalmente, está afirmando ao mundo que nós não vamos viver mais na base dos milagres momentâneos, aquele milagre em que a gente dorme uma noite feliz porque está tudo maravilhoso e, no dia seguinte, aparece a conta para a gente pagar. Temos uma política econômica que ainda precisa de muito ajuste, mas uma política econômica sólida, que está permitindo que as pessoas confiem no país.

Eu, sinceramente, duvido que, em algum momento da nossa história, o Brasil teve tanta confiabilidade externa como tem agora. E precisamos fazer mais, porque quanto mais sérios nós formos, mais as pessoas passam a confiar em nós. Se nós quisermos atrair investimentos para o Brasil, nós temos que mostrar que somos cumpridores dos nossos contratos, que nós somos sérios, porque assim as pessoas passam a ter confiança e a colocar parte do seu dinheiro aqui. E quando as pessoas souberem que a gente vai ter um porto bonito como este, dobrada a sua capacidade de exportação, aumentando o calado dos navios que vão poder entrar aqui, obviamente que Itajaí vai crescer mais e, junto com o crescimento de Itajaí, vão crescer as cidades vizinhas e, crescendo as cidades vizinhas, vai crescer o estado, e aí este estado vai poder melhorar ainda mais a qualidade de vida de todos vocês.

Meu querido Volnei, eu sei que você é a cara de tudo isto que está acontecendo aqui. Obviamente que a cidade teve muitos outros prefeitos que trabalharam, que lutaram, mas eu digo que você é a cara porque, antes de ser prefeito, você já era um militante em defesa do Porto de Itajaí. Como ninguém, você venceu. E o governador Luiz Henrique, que teve a coragem de municipalizar o Porto, quando muita gente fazia críticas.

Para terminar, gente – eu sei que vocês estão aí reclamando “puxa, esse Lula fala, fala, e nós estamos aqui” – eu queria dizer para vocês que só falta eu conhecer uma coisa aqui em Santa Catarina: é o Beto Carrero me convidar para ir lá naquele centro maravilhoso de diversão. Ele fala, de vez em quando encontra comigo, fala, fala, mas nunca convidou de verdade. O dia em que me convidar de verdade... Eu acho que ele quer... Eu acho que ele é daqueles caras assim “mão fechada”, ele está pensando que eu vou e não vou pagar, por isso ele não está querendo me convidar. Olha aqui, uma promoção: disse que mulheres e homens de Santa Catarina pagam a metade.

Mas eu queria te dizer, Beto... O Beto é daquelas pessoas que saem do nada, crescem, despertam muita inveja e depois viram patrimônio nacional. O Beto é, hoje, um patrimônio do povo brasileiro. Meus parabéns, Beto, e tudo de bom, querido.

Meus parabéns a todos vocês, que Deus abençoe a cada um de vocês, gente. Eu espero vir aqui quando as obras estiverem totalmente concluídas. O Volnei disse que vai ter uma sala, que os navios vão parar, vão hastear a bandeira, vai tocar o Hino Nacional, e a gente vai saber o que o navio vai fazer. Quando esse momento chegar, Volnei, eu voltarei aqui para que a gente possa participar disso.

Que Deus abençoe. Muito obrigado, gente.


 

 

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